segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma garota dividida em dois

Charles (François Berléand) é um premiado escritor de meia-idade, não especialmente bonito mas cercado de mulheres deslumbrantes, desbravador sexual. Já o jovem Paul (Benoît Magimel), de franja moderninha e queixo quadrado de galã, foi negligenciado pela mãe quando criança e vive à sombra do pai morto e milionário. São dois opostos, enfim. O intelectual e o sanguíneo, o velho e o novo, o casado e o solteiro, o amante bem resolvido Charles e o emasculado Paul.

Quem tem que escolher entre um e outro, como já adianta o título do novo filme do mestre francês Claude Chabrol, Uma Garota Dividida em Dois, é a bela Gabrielle (Ludivine Sagnier, de Swimming Pool). Garota de tempo de uma emissora de TV, dá pra ver pela cara dela que a moça vai subir rápido na carreira. Paul se apaixona à primeira vista, assim como Gabrielle rapidamente se deixa levar pelas frases feitas de Charles. O número de ilusionismo da bela cobaia serrada ao meio é a perfeita imagem poética do que Gabrielle vai enfrentar.

Como sempre um arguto cronista da sociedade, que não se furta a usar do humor visual mais sarcástico, como nos close-ups que dá na mãe de Paul, Chabrol comenta as castrações e as liberdades na alta roda pensante francesa em torno desse "mistério da humanidade que é a sexualidade", como define Charles.

Aos poucos o filme adiciona mais características, além daquelas primeiras, à polarização entre o escritor e o playboy. Entrega versus mentira, conhecimento versus conforto. São dois mundos que, de fato, não se conciliam. De um lado Charles diz, com a maior naturalidade, que não pode se divorciar da esposa porque "não tem nada contra ela", uma visão mais do que libertadora de uma instituição-clausura como o casamento. Do outro, por sua vez, Paul se inflama porque acredita no casamento em seu estado mais primal, tal o rito do sacrifício de uma virgem.

No fundo há em Uma Garota Dividida em Dois uma crítica ao conservadorismo cego de Paul e uma evidente simpatia pela permissividade sexual de Charles, mas ambos os lados têm seus momentos de cruel pragmatismo. E Chabrol, como todo grande cineasta francês, sabe sintetizar no rosto puro de Ludivine Sagnier esse universo de questões.

Retirado de Omelete



domingo, 8 de julho de 2012

Até a Eternidade


O ator Guillaume Canet, que atuou recentemente do longa Apenas uma noite, assina a direção e o roteiro de  Até a Eternidade (Les petits mouchoirs no título original), trama sobre um grupo de amigos que se reúnem para férias à beira-mar, enquanto torcem pela recuperação de outro que está hospitalizado.

A primeira cena mostra Ludo (o ótimo Jean Dujardin, antes de ganhar o Oscar por O Artista) saindo de uma balada já pela manhã e, antes mesmo do fim dos créditos iniciais, sua moto já está debaixo de um caminhão e ele no hospital - a cena é muito bem construida e surpreende bastante. O acidente é um catalisador para o reencontro de um grupo de personagens que, apesar do acontecido, resolve manter as férias habituais na casa de um deles - Max (François Cluzet, de O último caminho, e que lembra um pouco Dustin Hoffman pela aparência).

Aos poucos e sutilmente, os personagens mostram as suas caras, ganham identidade e a simpatia do público – especialmente porque não são clichês ambulantes, são gente de carne e osso, com medos, ansiedades, inseguranças e desejos. Não simbolizam uma virtude ou um defeito, mas conseguem reunir qualidades e falhas. A tragédia começa a intercalar muito momentos com a comédia. Ao mesmo tempo que rimos em vários momentos, não conseguimos esquecer que Ludo ainda continua muito mal no hospital.

Max (François Cluzet, de O Último Caminho) é um rico dono de hotel que tenta não se incomodar com as investidas do amigo Vincent (Benoît Magimel, de Uma Garota Dividida em Dois), que anda confuso com sua sexualidade.

Marie (Marion Cotillard, de Meia-noite em Paris) também tem dúvidas sobre quem, como ou se deve amar. Já Éric (Gilles Lellouche), mulherengo inveterado, gosta de manter uma namorada, só por garantia. E Antoine (o comediante Laurent Lafitte) fica esperando que sua Juliette (Anne Marivin) perceba a bobagem que fez ao terminar o relacionamento deles.

É esse cuidado com os personagens que mais encanta no drama de Canet, que trata a todos com dignidade. Há uma harmonia no elenco que faz com que todos estejam no mesmo patamar.

Marion, que divide sua carreira entre filmes nos EUA (A Origem,  Nine) e Europa (como o recente De Rouille et D’os), é uma presença luminosa aqui, enquanto Dujardin passa praticamente todo seu tempo em cena na cama de um hospital e com maquiagem pesada, por conta do rosto desfigurado com o acidente. Particularmente, gostaria de ter visto mais tempo dele em cena.

A longa duração de Até a Eternidade (mais de duas horas) não incomoda em nenhum momento, pois há muita força dos personagens e uma bela trilha sonora, mesclando clássicos dos anos 1970 (como Janis Joplin e The Weight) e músicas contemporâneas.

O filme estreiou apenas em São Paulo e apenas em uma sala - no Espaço Itaú do Shopping Frei Caneca.




domingo, 1 de julho de 2012

Para Roma, com Amor

Para Roma Com AmorPara Roma, com Amor, novo filme de Woody Allen, é inspirado no Decamerão, coleção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. A narrativa é composta por quatro histórias "paralelas" que envolvem traição e fama. O longa é repleto de referências e cópias de personagens e tramas presentes em longas não só de Allen, mas também do cineasta italiano Federico Fellini. 

O triângulo amoroso formado por Jack (Jesse Eisenberg), Sally (Greta Gerwig) e Monica, uma dita femme fatale (mas interpretada por Ellen Page, convenhamos que não é muito plausível) é interferido por John (Alec Baldwin) - que atua como a subconsciência de Jack, ou apenas um espectro, ou seria Jesse a versão juvenil de John? -, prevendo o envolvimento do jovem com a amiga de sua namorada Sally.

Aqui fica tudo muito parecido com Igual a Tudo na Vida, pois os personagens de Eisenberg e Page são similares ao casal Jerry (Jason Biggs) e Amanda (Cristina Ricci). Ele, um jovem com suas aflições e inseguranças; ela, uma jovem atriz vulnerável, tempestuosa e incontrolável.

Outra trama envolve um casal recém casado do interior, que chega na cidade para tentar se estabelecer; a história é cópia adaptada do filme O Abismo de um Sonho, de Fellini. As semelhanças nas tramas e nos personagens são muito perceptíveis. A traição na obra de Allen é mais incisiva que no original de Fellini, com interferência da oscarizada Penélope Cruz, como Anna. Infelizmente, os personagens de Cruz e Baldwin, mesmo tendo um papel importante em seus segmentos, não têm finalizações, ficando perdidos na ação. Baldwin, por exemplo, inicia o filme em uma mesa com sua mulher e amigos, e depois se limita a ser um personagem "sombra" na história entre Jack, Sally e Monica. Por outro lado, mesmo estando muito bem, não entendo o porquê de se escolher uma atriz espanhola - Cruz - para interpretar uma mulher italiana, se poderia ser aproveitada a ocasião pra se escolher uma atriz italiana para o papel - Monica Belucci, talvez.

O italiano Benigni faz sua participação em um segmento, que tem como tema a fama súbita. O desenrolar de sua história é a que mais se aproxima do universo do diretor. Trata-se de um homem normal que da noite para o dia vira celebridade. Esta narrativa é uma crítica às convenções de consumo e das celebridades instantâneas que não tem nada a dizer nem um talento considerável para a fama. E em contraponto a esta história, um casal e suas famílias: de um lado a turista americana Hayley (Pill) e de outro o italiano Michelangelo.

A família de Hayley é composta por um diretor fonográfico aposentado (Allen) e por uma psiquiatra niilista (Davis). Já os pais do noivo são um casal simples, tendo o pai um talento nunca explorado. Os diálogos e circunstâncias desta parte da narrativa são levados aos absurdos que só Woody é capaz de levar para as telas. Os conflitos e situações de extremos são típicas do diretor em todo o longa. Mas também é possível encontrar muitos diálogos, frases e ações já visitadas por ele. Seu alter ego (sempre presente em seus filmes), incorpora os demais personagens.

A falta de relação entre os segmentos acaba deixando o filme bem chato de se acompanhar depois de algum tempo. As histórias, em tese, deveriam se passar no mesmo espaço de tempo, mas enquanto a história do casal italiano se passa em um longuíssimo dia, os segmentos dos personagens de Benigni, Eisenberg, Page, Allen e Baldwin se passam em alguns dias, talvez semanas. Essa falta de sincronia no tempo nos afasta ainda mais do desenvolvimento das narrativas.

Além disso, se o título do filme nos remete a uma homenagem a Roma, tal como fora feito em Meia-noite em Paris, essa homenagem contempla críticas - vide a da criação de celebridades pela mídia, apenas para ter o que falar, assim como acontece em BBBs e congêneros - que não sabemos se a intenção é remetá-las tão somente para Roma e seus habitantes ou se de uma forma geral.

Depois de seis anos sem atuar em seus filmes - a última vez foi em Scoop - o seu retorno foi infeliz. Nesse curto espaço de tempo ele fez filmes muitos bons (Vicky, Cristina, Barcelona e Meia-noite em Paris), em que as cidades-personagens ganharam homenagens muito especiais.

Mas isso não se repete em Para Roma, com Amor, que, diante da filmografia de Woody Allen, é muito irregular, pra não dizer ruim.





quarta-feira, 27 de junho de 2012

Curta: Traz Outro Amigo Também

Eu particularmente adoro assistir curtas-metragens. São, geralmente, diretos na forma de abordagem do assunto. Rápidos e suscintos, que chegam e arrebatam. Por vezes, um longa pode se "perder" no meio do caminho, seja por falha no roteiro, seja por uma questão de direção ou por qualquer outro motivo. Mesmo um bom longa pode ter seus momentos ruins em sua extensão. Mas isso não pode ocorrer em um bom curta.

A vida do curta-metragem é muito curta. Ele nasce e tem que fazer acontecer - e isso é bem difícil.

Por isso, dedico esse post aos curtas e, em especial, ao curta-metragem Traz Outro Amigo Também, que assisti há pouco no Canal Brasil, na sessão Curta na Tela, com direção de Frederico Cabral.

De sensibilidade ímpar, a pequena obra nos conta a história de um empresário que contrata um detetive para procurar seu amigo imaginário de infância - Cornélios, desaparecido há mais de 50 anos.

O detetive aceita a empreitada após receber uma boa quantia em dinheiro, mesmo sem acreditar na possibilidade de se investigar algo praticamente impossível - não sabia nem fingir que estava trabalhando nesse caso. Talvez fosse tarefa para um psiquiatra, mas foi por indicação deste, aliás, que o empresário resolveu procurar o detetive.

Trata-se de um grande exercício de imaginação e criatividade, que merece ser divulgado e visto. Por isso, segue abaixo o curta na íntegra.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Panorama - Cinema Chileno Hoje

De 19 a 24 de junho foi realizado o cineclube Cinema Chileno Hoje, no Cine Olido, com o intuito de nos atualizar sobre a situação do que se produz, em termos cinematográficos, atualmente no Chile.

Musica campesinaNão consegui assistir a todos os filmes, infelizmente, e dos que assisti, apenas dois chamaram a minha atenção: Música Campesina e Velódromo, ambos sob direção de Alberto Fuguet e com o mesmo ator protagonista, Pablo Cerda.
O primeiro conta a história do músico Tazo Alejandro, que viaja para Nashville, nos Estado Unidos, junto com a namorada, de quem logo se separa. A partir disso, sua rotina se mistura entre arranjar lugares pra dormir e conhecer novas pessoas, mesmo sem saber falar muito bem inglês. 

É um filme que vale por alguns diálogos - como aquele em que Tazo e um norte-americano discutem sobre a filmografia de Clint Eastwood e mencionam o filme Nashville, de Robert Altman - e sobre como o Chile ainda pode ser um país desconhecido pra muita gente (tanto que, em determinado momento do filme, Tazo diz ser espanhol).

O segundo - Velódromo -, trata da história de Ariel Roth, próximo de completar 35 anos de idade, que é abandonado pela namorada e melhor amigo, em virtude de suas manias (uma delas, andar de bike pra lá e pra cá) e ritmo de vida. É um filme que empolga no começo, mas que se alonga demais. É bom ver filmes que retratam de certa forma o cotidiano de "pessoas normais" - assim como em Medianeiras. Mas Velódromo peca pelo excesso em tentar abobalhar muito Ariel em determinados momentos, ao passo que, em vez de nos identificarmos cada vez mais com o personagem - como acontece em Medianeiras (pelo menos no meu caso) -, acabamos nos afastando.

De qualquer forma, são filmes que eu aconselho buscarem de alguma forma (leia-se torrent), haja vista que é improvável, pra não dizer impossível, que tenham distribuição no Brasil.

Os outros que assisti, coincidentemente, voltados para a temática política, mais propriamente sobre a ditadura de Pinochet - Lucia, O Edifício dos Chilenos e Post Morten - não me agradaram tanto.



A Mulher do Lado (La Femme D'à Côte)

Em Grenoble, sudeste da França, a obra se inicia com uma mulher - gerente de um clube de tênis - que narra os trágicos acontecimentos que se sucederam quando um homem casado - Bernard (Gèrard Depardieu) - tem novos vizinhos e é surpreendido ao ver que a mulher do novo inquilino, Mathilde (Fanny Ardant), já esteve envolvida com ele, há oito anos atrás, em uma relação tumultuada e doentia.

Ambos se comportam como se estivessem se conhecendo naquele instante, deixando claro, entretanto, que Bernard não quer manter qualquer tipo de contato com Mathilde. Mas, em pouco tempo, o caso deles é reiniciado - primeiro, como um ajuste de contas, depois, como amantes. Durante uma festa ele perde o total controle da situação e o fato deles terem sido amantes no passado vem à tona, deixando toda a situação mais tensa.

Sentimos como é duro e impiedoso esse amor entre Bernard e Mathilde, haja visto que atravessa até mesmo a felicidade que Bernard tem com sua família até então - é casado com a jovem e bonita Arlette (Michèlle Baumgartner), com quem tem um filho, Thomas (Olivier Becquaert) -, a qual é sobreposta. Mathilde também não tinha uma vida infeliz e era casada agora com Philippe Bauchard (Henri Garcin). Ou seja, não se trata de pessoas que não amavam seus parceiros. Talvez o amor que nutriam por seus respectivos companheiros era o amor saudável, ideal para a manutenção de uma relação. Já o amor que nutriam um pelo outro era destrutivo e que nunca iria se firmar.

Mas não é no enredo que está a melhor qualidade do filme, e sim no modo como François Truffaut o desenvolve. A história é narrada pela presidente do clube de tênis da cidade (Véronique Silver). Ela mesma marcada por uma paixão do passado que lhe deixou marcas pra sempre. Esse é o ponto de partida para o diretor conduzir a trama de maneira arrebatadora.

Apesar da tensão que envolve as personagens, elas se comportam com leveza. Pelo menos socialmente. Na intimidade, deixam a atração aflorar. Fanny Ardant e Gèrard Depardieu, jovens, atraentes, bonitos e elegantes, esbanjam talento e sensualidade. A Mulher do Lado marcava o início de brilhante carreira cinematográfica para os dois.

Depois desse, François Truffaut fez apenas um filme: “De Repente, Num Domingo (Vivement Dimanche), haja vista sua morte prematura em 1984, vítima de um tumor cerebral.

domingo, 24 de junho de 2012

A Queda

O texto de A Queda traduz o sentimento de ansiedade, próprio do indivíduo que traz a angustia e a necessidade de ser ouvido, devido à falta de atitude que levou Jean-Baptiste Clamence, protagonista da história, a sentir culpa por não ter dado a atenção a um fato que resultou na morte de uma mulher.

A impossibilidade de retroceder no tempo e transformar a omissão em ação fez do personagem um indivíduo ansioso, a ponto de levar o autor a estruturar o texto em um monólogo, capaz de colocar o leitor na condição do interlocutor desconhecido, inoperante e absorto.

Jean-Baptiste Clamence, advogado parisiense que se denominou “juiz-penitente”, deixou o glamour da cidade após uma vasta experiência hedonista, na qual a busca do prazer e da satisfação pessoal chegou a extrapolar o sentimento egocentrista. Instalou o seu escritório, em um botequim conhecido como México-City, na cidade de Amsterdam e em companhia dos frequentadores identificava clientes potenciais.

Quase sempre, divulgava suas ideias às pessoas que conviviam no local, contudo, certo dia, elegeu um cliente do botequim México-City como ouvinte da maioria das suas angustias e inquietações.
O monologo é composto de frases provocativas e audaciosas. Coloca o protagonista no centro da história, expondo-o à avaliação de conceitos e atitudes que evidenciam um estilo de personalidade  com tendência existencialista.

Diz o protagonista com sentimento egocentrista:  

“Já reparou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabaram de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam mais, que estão com a boca cheia de terra! A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa homenagem que talvez tivesse esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há mais obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não é o morto recente que nós amamos nos nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

Cita a respeito da ausência de caráter:  

“Quanto a mim, moro no bairro judeu, ou no que era assim chamado até o momento em que nossos irmãos hitlerianos abriram espaço. Que limpeza! Setenta e cinco mil judeus deportados ou assassinados – é a limpeza pelo vácuo. Admiro esta aplicação, esta paciência metódica! Quando não se tem caráter, é preciso mesmo valer-se de um método.”

O monólogo traz, também, um desabafo, sofrido, de um homem que não consegue se desvencilhar do sentimento de culpa e o remete a avaliações que o incorpora no contexto  de uma sociedade individualista e pouco preocupada com uma conjuntura mais ampla. Vejamos:  

“Devo reconhecer humildemente, meu caro compatriota, que fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão de minha preciosa vida, e que se ouvia em tudo quanto eu dizia. Só conseguia falar vangloriando-me, sobretudo quando o fazia com esta ruidosa discrição, cujo segredo eu possuía. É bem verdade que eu sempre vivi livre e poderoso. Simplesmente, sentia-me liberado em relação a todos pela excelente razão de que me considerava sem igual. Sempre me achei mais inteligente do que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e ótimo amante. Mesmo nos setores em que era fácil verificar minha inferioridade, como o tênis, por exemplo, em que eu era apenas um parceiro razoável, era-me difícil não acreditar que, se tivesse tempo para treinar, superaria os melhores. Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e serenidade. Quando me ocupava dos outros, era por pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia em meu favor: eu subia um degrau no amor que dedicava a mim mesmo.”

O livro é um ensinamento, grandioso, que só autores da estirpe de Albert Camus são capazes de levar o leitor à reflexão do comportamento humano, muitos dos quais, seus reflexos, são irreversíveis para si próprio e para a humanidade.
Retirado de: Visão Literária

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Exótico Hotel Marigold

Um olhar para a velhice e seus impactos é vem tendo constantes enfoques na filmografia atual. Tanto que Amor, de Michael Haneke, que trata exatamente disso, foi o ganhador da Palma de Ouro em Cannes desse ano. 

E outro filme que trata disso é exatamente O Exótico Hotel Marigold, com direção de John Madden, mesmo diretor de Shakespeare Apaixonado.

No filme, os aposentados Muriel (Maggie Smith), Douglas (Bill Nighy), Evelyn (Judi Dench), Graham (Tom Wilkinson) e mais três pessoas decidem aproveitar a aposentadoria em um lugar diferente e o destino é a Índia. Encantados com o exotismo do local e com imagens do recém restaurado Hotel Marigold, o grupo, que se encontra primeiramente no aeroporto, para lá vão e são recebidos pelo jovem sonhador Sonny (Dev Patel), protagonista de Quem quer ser um milionário.

Todos têm histórias bem distintas e são contadas de forma muito rápida no início do filme, haja vista que o foco é justamente a chegada dos mesmos ao dito hotel. Muriel foi a governanta da casa de uma família durante muitos anos, mas quando a velhice começou a atrapalhar seus afazeres diários, teve que se aposentar e dar lugar a alguém mais jovem. Além disso, ela tem problemas no quadril e precisará ser operada, visto que mal consegue andar.

No hospital, logo no início do filme, ela manifesta seu racismo com pessoas negras, em especial, com um médico negro que a atenderia. Nesse sentido, talvez pudesse ficar reservado a Muriel algumas das melhores passagens do filme - em virtude da discussão do seu racismo, etc, mas essa expectativa não se cumpre. Ao mesmo tempo que manifesta seu racismo frente a um médico de origem indiana, ela não reluta muito em ir fazer uma cirurgia na Índia, onde o tempo de espera para tal procedimento seria imediato, enquanto que nos EUA ela ficaria na lista de espera.

Douglas e sua mulher vão para a Índia para comemorar os 40 anos de casados, embora não pareçam muito sintonizados um com o outro. Evelyn perdeu o marido há pouco tempo e busca realizar atividades pra preencher o tempo. Navegando pela internet, descobre o hotel Marigold, que promete tudo do bom e do melhor. Paralelo a isso, ela não se conforma com o atendimento das pessoas de suporte técnico e nem das de telemarketing e aqui vemos certa crítica à "robotização" desses serviços.

Graham viaja para a Índia em busca do reencontro de um grande amor, enquanto que Judith (Lucy Robinson) e Norman (Ronald Pickup) querem apenas aliviar a solidão e encontrar novos parceiros.

Como disse, a motivação dos personagens na escolha pela Índia é muito rápida e não muito eficiente, pois são nos deixa compreender bem suas razões em ir pra lá, especificamente, quando poderiam ir pra qualquer outro lugar.

Evelyn, por sua vez, interpretada pela majestosa Judi Dench, é alguém que tinha muitos problemas na utilização do computador, mas acaba criando um blog pra detalhar a viagem. Se ela tinha dificuldades com tarefas básicas na informática, como criaria um blog sozinha? Pequenos detalhes realmente contam.

O fato de ter se optado por não mostrar o voo, a situação deles dentro do avião, na minha concepção, foi equivocada. Pular esse momento nos fez perder um pouco da conexão com o filme em si. Já no hotel, os personagens são muito condescendentes com as suas condições (do hotel), quem em nada lembram o que se esperavam e o que fora comprado. Histórias paralelas se formam e a mais interessante é a de Graham, que guarda um segredo com relação ao amor que foi procurar na viagem. O fato de Evelyn ir trabalhar em uma empresa de telemarketing na Índia está mais para o clichê do "eu te ajudo pra você me ajudar".

O romance entre Sonny (em um papel muito caricato) com Madge (Celia Imrie) também não sai do lugar comum e é desnecessário no contexto da narrativa, que deveria ter mantido foco integral na vida dos visitantes do hotel, sem querer fazer esse pararelo com a história de pessoas mais jovens - talvez para contrastar as gerações.

O final é previsível, assim como todo o filme, salvo com algumas surpresas que acontecem no seu decorrer e com as aparições de personagens secundários - Judith e Norman. Não que seja um filme de todo ruim, pois há alguns momentos bons e engraçados. Porém, com o propósito de ser uma comédia, não traz nada de novo e, salvo raros momentos, não empolga.


Mr. Sganzerla - Os signos da luz

Orson Welles, Jimi Hendrix, Godard, Oswald de Andrade. O que eles têm em comum?

Todos são ícones na formação cinematográfica de Rogério Sganzerla, precursor do chamado Cinema Marginal, grande e rico movimento cultural que se instaurou no Brasil entre as décadas de 60 e 70.

Mr. Sganzerla - Os signos da luz, de Joel Pizzini, é um documentário livre sobre a vida e obra de Rogério Sganzerla, mostrando-nos seus pensamentos, sua filosofia e sensibilidade para a criação do Cinema Marginal e toda a sua admiração por Orson Welles, a quem definia como o melhor cineasta do mundo.

Em sua filmografia, Sganzerla tentou difundir todas as suas influências nas suas obras, sem se ater a um formalismo estético. Fazia um cinema libertário, sem a prisão da forma. A criação da Belair e sua parceria com Júlio Bressane também marcam presença na película.

Sganzerla teve como grande expoente a realização de O Bandido da Luz Vermelha, de  1968, um dos filmes mais vistos no Brasil na história.

O filme está em cartaz no Espaço Unibanco da Augusta, de graça! Portanto, não perca a oportunidade de conferir esse documentário e descobrir um pouco desse diretor tão marcante no cinema brasileiro e, consequentemente, de todo um movimento histórico do cinema nacional.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pickpocket

Pickpocket é um dos grande filmes do mestre Robert Bresson, sempre muito elogiado pelos precurssores da Nouvelle Vague, que viam nele uma cinema distinto.

O filme, livremente inspirado na obra Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, se inicia na primeira tentativa de roubo frustrada de Michael (o ator amador Martin LaSalle), em um hipódromo. O protagonista é pego mas acaba se livrando devido à falta de evidências contra ele. A partir de então o que se nota é um desenvolvimento das artimanhas utilizadas pelo protagonista para abordar pessoas e afanar seus pertences pessoais com muita destreza, muitas vezes junto com cúmplices, alguns dos quais lhe ensinam vários dos truques apresentados ao longo da película, de forma a desenvolver suas habilidades, tal como treinar as mãos jogando fliperama ou rodando moedas com os dedos.

Concomitantemente, Michael recebe a notícia de que sua mãe está muito doente, à beira da morte e, ao visitá-la, conhece Jeanne (Marika Green), uma vizinha responsável pelos cuidados da sua progenitora. Forma-se aí uma relação afetuosa que posteriormente teria motivado a tentativa do protagonista de abandonar a compulsão por bater carteiras.

Os acontecimentos das vidas "profissional" e "pessoal" de Michael se entrelaçam. Michael vai para a Itália e posteriormente para a Inglaterra, fugindo da polícia e de seus sentimentos por Jeanne, abalados por um suposto envolvimento entre ela e Jacques, um grande amigo comum aos protagonistas. Acaba voltando dois anos depois para Paris, segundo suas próprias palavras, tão pobre quanto saiu, em virtude do seu vício por mulheres e por jogos.

Reencontra Jeanne, mãe de um menino de Jacques, porém, separada dele. É nessa altura que decide "endireitar-se", mas, ironicamente, acaba sendo preso devido a uma "recaída". O filme termina com uma espécie de redenção através do amor de Jeanne. Nota-se ainda que Michael tem um estranho, quase confessional relacionamento com o oficial de polícia que o persegue durante a história.

O estilo tão particular de Bresson, descrito à exaustão como “rigor formal”, se resume na verdade em planos secos e descritivos, acompanhados de uma direção que procura tirar dos atores toda e qualquer plasticidade cênica, numa total rejeição da teatralidade, resultando em práticas anti-expressionistas. 

Não se trata de uma representação real, longe disso Bresson dirige os atores (que ele chama de “modelos”) de forma a não deixar qualquer resquício dramático ou mimético, o resultado é uma pessoa passando uma determinada informação de forma seca e absolutamente sóbria. Quanto aos planos, são em geral descritivos, se é importante o ato do personagem abrir uma maçaneta a câmera irá mostrar um plano fechado da maçaneta sendo aberta, se é importante o ato do personagem tirar uma carteira do bolso a câmera irá focar a carteira sendo tirada do bolso e assim por diante. Além disso, a mudança de planos é feitas de forma que o novo plano se sobrepõe ao anterior, num efeito de esmaecer.

Nos extras do filme, Bresson, em entrevista concedida a dois críticos, se mostra uma pessoa muito humana ao responder que, de fato, era uma pessoa muito só, mas que não via vantagens nisso. Além disso, argumenta que o importante em Pickpocket é sentirmos a atmosfera do ladrão, a sua solidão e corrupção do ser humano. Bresson concebe aqui uma obra franca e direta.