segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pickpocket

Pickpocket é um dos grande filmes do mestre Robert Bresson, sempre muito elogiado pelos precurssores da Nouvelle Vague, que viam nele uma cinema distinto.

O filme, livremente inspirado na obra Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, se inicia na primeira tentativa de roubo frustrada de Michael (o ator amador Martin LaSalle), em um hipódromo. O protagonista é pego mas acaba se livrando devido à falta de evidências contra ele. A partir de então o que se nota é um desenvolvimento das artimanhas utilizadas pelo protagonista para abordar pessoas e afanar seus pertences pessoais com muita destreza, muitas vezes junto com cúmplices, alguns dos quais lhe ensinam vários dos truques apresentados ao longo da película, de forma a desenvolver suas habilidades, tal como treinar as mãos jogando fliperama ou rodando moedas com os dedos.

Concomitantemente, Michael recebe a notícia de que sua mãe está muito doente, à beira da morte e, ao visitá-la, conhece Jeanne (Marika Green), uma vizinha responsável pelos cuidados da sua progenitora. Forma-se aí uma relação afetuosa que posteriormente teria motivado a tentativa do protagonista de abandonar a compulsão por bater carteiras.

Os acontecimentos das vidas "profissional" e "pessoal" de Michael se entrelaçam. Michael vai para a Itália e posteriormente para a Inglaterra, fugindo da polícia e de seus sentimentos por Jeanne, abalados por um suposto envolvimento entre ela e Jacques, um grande amigo comum aos protagonistas. Acaba voltando dois anos depois para Paris, segundo suas próprias palavras, tão pobre quanto saiu, em virtude do seu vício por mulheres e por jogos.

Reencontra Jeanne, mãe de um menino de Jacques, porém, separada dele. É nessa altura que decide "endireitar-se", mas, ironicamente, acaba sendo preso devido a uma "recaída". O filme termina com uma espécie de redenção através do amor de Jeanne. Nota-se ainda que Michael tem um estranho, quase confessional relacionamento com o oficial de polícia que o persegue durante a história.

O estilo tão particular de Bresson, descrito à exaustão como “rigor formal”, se resume na verdade em planos secos e descritivos, acompanhados de uma direção que procura tirar dos atores toda e qualquer plasticidade cênica, numa total rejeição da teatralidade, resultando em práticas anti-expressionistas. 

Não se trata de uma representação real, longe disso Bresson dirige os atores (que ele chama de “modelos”) de forma a não deixar qualquer resquício dramático ou mimético, o resultado é uma pessoa passando uma determinada informação de forma seca e absolutamente sóbria. Quanto aos planos, são em geral descritivos, se é importante o ato do personagem abrir uma maçaneta a câmera irá mostrar um plano fechado da maçaneta sendo aberta, se é importante o ato do personagem tirar uma carteira do bolso a câmera irá focar a carteira sendo tirada do bolso e assim por diante. Além disso, a mudança de planos é feitas de forma que o novo plano se sobrepõe ao anterior, num efeito de esmaecer.

Nos extras do filme, Bresson, em entrevista concedida a dois críticos, se mostra uma pessoa muito humana ao responder que, de fato, era uma pessoa muito só, mas que não via vantagens nisso. Além disso, argumenta que o importante em Pickpocket é sentirmos a atmosfera do ladrão, a sua solidão e corrupção do ser humano. Bresson concebe aqui uma obra franca e direta.


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