Fruto de uma parceria entre o ator Vincent Lindon e o diretor Philippe Lioret, Bem-vindo (Welcome, no título original) é um desses filmes que ficam com o espectador ao longo da trama e permanecem com ele após o fim da projeção, embora seja - e possivelmente é - clichê falar assim. Entretanto, a forma delicada de sua realização, aliada ao estilo minimalista, sem grandes discussões, como aborda o assunto, faz do filme uma preciosa obra, passada quase que de forma despercebida aqui no Brasil quando de sua estreia, em 2009.
Na projeção, Vincent Lindon interpreta o professor de natação Simon Calmat, que recebe na escola em que trabalha o jovem Bilau, interpretado por Firat Ayverdi, de origem curda, que, em uma tentativa de ir do Iraque, seu país de origem, para a Inglaterra, onde mora a garota por quem é apaixonado, acaba sendo parado em território francês juntamente com outros jovens, após três meses de viagem.
Entretanto, ao serem parados na França, acabam tornando-se pessoas sem país, com a origem apenas estampada em seus rostos, pois não podem ser encaminhados de volta ao Iraque, em virtude do país estar em guerra, tampouco são bem-vindos na França, por serem considerados ilegais, nem podem seguir, logicamente, para a Inglaterra.
Os cidadãos franceses também não podem ajudá-los, pois estariam incorrendo em crime, passível até mesmo de prisão. Logo, todos esses jovens tornam-se pessoas sem pátria, sem casa, sem rumo, sem ajuda.
Com todos esses fatores, Bilau começa a pensar em chegar na Inglaterra pela travessia do Canal da Mancha, a nado. Porém, ele não sabe nadar.
Ao conhecer uma escola de natação, começa a ter aulas com Simon, outrora nadador profissional, que além de ser seu professor, começa a tornar-se também um grande amigo e confidente. Simon, entretanto, tem seus próprios problemas - enfrenta a separação da mulher que ainda ama. As represálias começam a surgir também quando vizinhos e, posteriormente, as autoridades francesas descobrem a ajuda que é prestada por ele a Bilau.
Em suma, Bem-vindo é uma obra calma, sensível e poderosa sobre a coragem individual e sacrifício de seres humanos normais. Bilal e Simon são sinceros ao tentar fazer a coisa certa e não serem colocado fora de seu objetivo.O objetivo não é tomar uma posição sobre a imigração legal ou ilegal., mas apenas demonstrar que os imigrantes são humanos como todos nós, e têm as suas próprias histórias.
Às voltas com traquitanas tecnológicas, o homem moderno perde-se na busca inalcançável da felicidade e do bem-estar, mascarado pela posse fugaz de objetos e prazeres instantâneos. O dia, que deveria ter vinte e quatro horas, passa a ser insuficiente para a quantidade de atividades e compromissos inadiáveis.
Corremos atrás de metas e prazos impossíveis de serem cumpridos.
Na tentativa de melhorar essa existência imediatista, o homem moderno busca na espiritualidade, na prática de esportes e na alimentação, teoricamente, balanceada, o equilíbrio destruído por ele mesmo, mas comete o erro crasso de transferir à busca pelo bem-estar as metas e os prazos exigidos pelo trabalho e pela tecnologia reinantes.
O ideal seria que nos atentássemos a viver o agora, um dia de cada vez, ligados somente ao presente. Mas esse ideal é destituído da graça de estar à frente, de ultrapassar barreiras oferecidas pela suposta vida moderna.
E assim seguimos, só por hoje, tentando sobreviver. Crentes de que, um dia, alcançaremos a almejada "vida melhor"....
Curtis LaForche (Michal Shannon) era um homem comum, humilde, com um emprego razoável que lhe permitia perceber um salário modesto como chefe de equipe de uma empresa de extração de areia, casado com Samantha (Jessica Chastain) e com uma filha de seis anos - Hannah (Tova Stewart) - que sofre de problemas auditivos (a atriz é, de fato, surda).
Mesmo com as dificuldades de uma família de classe média, adicionado o problema de sua filha, eles são pessoas felizes e que se amam, sociáveis e que vão à igreja. Têm uma boa casa em uma pequena cidade de Ohio e um bom carro, o que lhes permite, de certa forma, contemplar o american way of life.
Entretanto, mudanças estão por vir. Curtis começa a ter pesadelos, nos quais sua família e, até mesmo, seu cão estão incluídos, além de começar a ter visões que nos remetem ao início de uma grande tempestade apocalíptica. Diante disso, começa, enfim, sua paranoia em construir um abrigo para a sua família, como forma de defesa e de proteção.
Porém, construir um abrigo demanda tempo e dinheiro. No tempo que ele deveria trabalhar, está submerso em seu abrigo, que é pensado em cada pormenor de modo que não falte nada quando a grande tempestade chegar. E o dinheiro que ele deveria usar para custear o tratamento da filha ou mesmo para a viagem das férias, ele utiliza para comprar todos os equipamentos necessário para a construção do abrigo.
Por conta disso, os problemas começam a surgir em sua família e em seu trabalho. As pessoas ao seu redor já não conseguem vê-lo como alguém "normal". A obsessão e a paranoia já tomaram conta de Curtis, que não pensa duas vezes em dar seu cão ao irmão, após um pesadelo no qual o animal quase arranca seu braço. Além disso, seu acesso de ira com um antigo amigo aflora toda a capacidade interpretativa de Michael Shannon, deixando-nos impressionados com tamanha intensidade.
Não obstante, ele mesmo (Curtis), em um primeiro momento, pensa que algo está errado com ele, uma vez que esses eventos possam ser talvez um prenúncio de esquizofrenia, doença que atingiu sua mãe. Por isso, visita o médico da cidade e vai a sessões com uma psicóloga. A melhora vem, mas é passageira. Diante do anúncio de uma tempestade de se aproxima, ele e sua família vão para o abrigo. Será que as suas visões se justificariam? Será que ele não estava louco como todos imaginavam?
Para não estragar a experiência fílmica de assistir a este filme, indico que a partir daqui terão spoilersque sugiro serem lidos apenas por quem já assistiu a obra.
Feito essa observação, adentramos no abrigo e Curtis, após certo tempo, não tem coragem de sair do mesmo pra ver se a tempestade já cessou. Ele afirma que ela continua, mesmo sem ter certeza. Fica na vontade de Samantha a vontade de sair daquele lugar e ver o que ocorreu. Eles saem e vislumbram um céu ensolarado e resquícios do que pode ter sido uma tempestade com uma ventania muito forte, mas nada além disso e nada que justificasse toda a obsessão de Curtis.
Visto isso, até mesmo ele começa a duvidar de si e de suas visões e pesadelos, bem como o que poderiam representar. Porém, a ida à praia da família de Curtis irá provar o quão certo ele estava e que suas visões proféticas se tornarão realidade. O abrigo agora configura-se nos braços de sua esposa e de sua filha, em uma cena que mostra que não é apenas mais um filme qualquer, mas sim uma obra que quer e consegue nos transmitir algo a mais. A loucura, se era mesmo loucura, tinha sua justificativa plausível de ser.
Ao término do filme e mesmo depois de um tempo refletindo sobre o mesmo, a impressão que ficou foi a de um paralelo entre as visões apocalípticas de Curtis e as razões dos Estados Unidos da América em suas guerras contra o terrorismo - podem parecer loucos, mas no final, estariam certos (?). E, assim, seria uma forma de buscar justificativas pra tudo o que já se foi feito, como uma busca por um mal maior.
Entretanto, é apenas uma leitura que fiz, que não necessariamente é certa ou errada, que pode ou não ser a visão do Jeff Nichols quando escreveu o roteiro. Isso é algo que parte da impressão de cada um, mas que vale discutir as interpretações.
O abrigo, enfim, conta com uma direção praticamente impecável de Jeff Nichols (diretor de Shotgun Stories, que também conta com Michael Shannon), que também assina o roteiro, além de atuações exuberantes de Michael Shannon e de Jessica Chastain (que também atuou em A Arvore da Vida e Histórias Cruzadas). Também é bom destacar a trilha sonora do filme, composta por David Wingo.
É certamente um dos grandes filmes lançados neste ano aqui no Brasil (o lançamento nos EUA foi em Outubro de 2011), que foi diretamente para as locadoras sem ter passado pelo cinema, o que me causou grande tristeza. Assisti-lo na tela grande seria um evento prazeroso, mas que nos foi renegado por motivos, certamente, financeiros, haja vista que o longa não foi tão bem recepcionado em território norte-americano - o filme teve um custo estimado em cinco milhões e rendeu apenas pouco mais de 3 milhões, segundo estimativas do IMDB. Uma pena.
Ficha Técnica:
Diretor: Jeff Nichols Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Heather Caldwell Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin Roteiro: Jeff Nichols Fotografia: Adam Stone Trilha Sonora: David Wingo Duração: 120 min. Ano: 2011 País: EUA Gênero: Drama Cor: Colorido Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Strange Matter Films / Grove Hill Productions / Hydraulx
A cena de abertura de “Mouchette – a Virgem Possuída” (França, 1967) mostra um caçador, na floresta, preparando armadilhas para pássaros. Ele consegue capturar um, o bicho se debate em desespero, e o homem o solta. Trata-se de uma metáfora quase óbvia para o que a platéia verá nos 75 minutos a seguir: os moradores de uma aldeia rural no interior da França, tratando com desprezo e crueldade uma adolescente de 16 anos – a menina do título – cuja mãe está à beira da morte. O filme, sempre citado como um dos mais importantes entre os treze que Robert Bresson dirigiu, oferece uma experiência perturbadora.
A narrativa é estruturada como uma série de incidentes em que Mouchette (Nadine Nortier) sofre todo tipo de abuso dos aldeões – o filme inspirou o dinamarquês Lars Von Trier a escrever o polêmico “Dogville” (2003). As colegas de colégio riem dela, os adultos a tratam com agressividade. O pai de Mouchette não lhe dirige um único olhar. Apenas uma pessoa na vila gosta dela: a mãe. Só que a mulher sofre com um câncer terminal, e passa todo o tempo deitada na cama, gritando de dor. Mouchette estuda, precisa ganhar dinheiro, e quando chega em casa nada de descanso, pois é obrigada a cuidar da mulher enferma e do irmão recém-nascido.
Há um paralelo bíblico evidente entre a história de Mouchette e a parábola de Jó, narrada no Velho Testamento. Ele é um homem obrigado a suportar sofrimentos infindáveis em uma série de tentações demoníacas. A inspiração bíblica fica ainda mais clara quando se sabe que Bresson era um diretor profundamente católico, que seguia os ensinamentos de uma corrente religiosa chamada jansenismo. A doutrina prega a disciplina rígida de corpo e espírito para alcançar a iluminação, tendo alguma semelhança com o budismo. Em “Mouchette”, Bresson parece nos dizer que a vida é uma prisão, e que somente a morte liberta.
Ao provocar uma constante sensação de incômodo no espectador, por obrigá-lo a testemunhar o sofrimento permanente de uma adolescente atormentada, “Mouchette” acaba por se mostrar um dos melhores trabalho do diretor francês. Neste filme, Bresson constrói uma situação-limite, mas nem assim abandona o impressionante rigor formal e a abordagem distante, impassível e objetiva, das ações que observa. O longa-metragem poderia fornecer farto material para um melodrama, mas a secura da narrativa afasta as emoções. Se parece uma história triste, é porque o espectador desenvolveu por ela um sentimento que é só dele, e não está no filme.
Em “Mouchette”, a orientação que o diretor gostava de dar aos atores – atuar sempre com o rosto neutro, sem expressões faciais que possam sinalizar ao público o que se deve sentir – causa um efeito perturbador. Nós assistimos à crueldade com que todos os personagens do filme tratam a jovem protagonista, e sentimos raiva por ela, porque a face dela não demonstra reação. Nada. O resultado disso é uma sensação de desorientação, de vazio, de não saber o que está ocorrendo. Bresson exige que o espectador reaprenda a olhar. Um filme do diretor francês desarma a platéia, e “Mouchette” é um dos melhores nesse sentido.
O filme ganhou lançamento no Brasil em DVD pela Silver Screen Collection. O disco é simples e contém apenas o filme, restaurado, com boa qualidade de imagem (wide 1.77:1) e som (Dolby Digital 2.0). E vale ainda abominar o ridículo subtítulo nacional.
- Mouchette, a Virgem Possuída (França, 1967)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Maria Cardinal, Paul Hebert
Na semana passada, fui ao Reserva Cultural assistir, com a presença inseparável da minha namorada, o novo longa-metragem meio sort of musicaldo diretor francês Christophe Honoré,Bem amadas,que se acostumou a fazer filmes dessa maneira, variando a narrativa convencional pelo uso frequente desse musical não tão convencional, no qual os personagens cantam de forma despretensiosa - um cantar falado, por assim dizer, típico francês.
Antes de falar do filme, gostar de fazer uma breve introdução sobre Christophe Honoré, que faz parte da "nova velha" geração do cinema francês, que se não bebe tanto da Nouvelle Vague de Truffaut e Godard, bebe da Nouvelle Vague de Chabrol e Resnais, fazendo um cinema bem autoral, pois sabemos que um filme é de Honoré quando assistimos.
Algumas características de seus filmes são a temática por muitas vezes voltada para relações homossexuais, conflitos familiares e amorosos, intensidade da melancolia e utilização, em alguns filmes, da linguagem cantada.
Nascido em 1970, Christophe escreveu alguns artigos para a famosaLes Cahiers du Cinémae livros destinados a jovens adultos na década de 90. Escreveu duas peças de teatro e começou na direção em 2000, com o filmeNous deux.Com esse, já são onze filmes em sua curta carreira de sucesso. Particularmente, dentre esses onze filmes, destaco:Em paris, Canções de Amor, A Bela Junie, Não minha filha, você não vai dançare o atualBem Amadas,todos com a participação de Louis Garrel, com quem firmou essa fiel parceria.
Vale dizer que essa nova geração do cinema francês também conta com outros nomes de peso: Cédrik Klapisch, que dirigiuAlbergue Espanhol, Bonecas Russas e Paris, seus trabalhos mais reconhecidos. E se Honoré tem sua parceria com Louis Garrel, Klapisch tem a sua com outro grande ator francês da atualidade, Romain Duris. François Ozon, contemporâneo de Honoré e Klapisch, também produz um belo cinema, com alguns filmes muito bons, tais comoOito Mulheres, Swimming Pool, O Tempo que Resta, Angel, O refúgioePotiche.
Voltando aBem-Amadas, o seu começo com "These boots are made for walking", onde mulheres experimentam os mais variados pares de sapatos, empolga. Estamos em Paris, na década de 1960, acompanhando Madeleine (Ludivine Sagnier, deUma Garota Dividida em Dois, de Claude Chabrol), vendedora da loja de sapatos da cena inicial, que se torna prostituta ocasionalmente (prostitui-se para comprar seus sapatos e para não roubar), até ser resgatada por um médico tcheco, Jaromil (Radivoje Bukvic), com quem tem uma filha e se muda para a cidade de Praga.
Porém, não consegue ficar muitos anos lá: a infidelidade do marido se une aos problemas políticos que se passava na então Tchecoslováquia, no evento histórico conhecido como Primavera de Praga, período de liberalização política do país durante a época de sua dominação pelaUnião Soviéticaapós a Segunda Guerra Mundial. Esse período começou em5 de Janeirode1968, quando oreformistaeslovacoAlexander Dubčekchegou ao poder, e durou até o dia21 de Agostoquando a União Soviética e os membros doPacto de Varsóviainvadiram o paíspara interromper as reformas.
É de se ressaltar que a direção de arte, figurino e cores são muito bem elaborados para a criação de um passado remoto e para a fidelização ao tempo histórico que Honoré busca retratar. Tudo é tratado com minúcia pra nos deixar vivenciar o passado.
O passado e o presente fazem um diálogo na figura de Madeleine (na maturidade interpretada por Catherine Deneuve) e sua filha, Vera (Chiara Mastroianni, filha da atriz com Marcello Mastroianni). Ela busca um amor além do amor que sente/sentiu por Clément (Louis Garrel), e o seu recente envolvimento é com Henderson (Paul Schneider), músico norte-americano gay. Clemént, por sua vez, nunca escondeu que seu amor continua e, por isso, ainda sofre por não conseguir alcançar Vera.
Todo o amor, sua ausência, o sofrimento e alegria são pontos que culminam na expressividade musical de seus personagens. Cantando, talvez, você expressa sentimentos que não se desenvolvem no diálogo convencional. Mas, ao mesmo tempo que entendemos a sua utilização, parece-me que Honoré, emBem Amadas, exagera ao concentrar as encenações musicais em alguns momentos do filme, o que pode cansar. Se fossem tratadas de forma homogênea durante toda a projeção, talvez não fosse um problema.
Seguindo, o pai de Vera volta para França, agora interpretado pelo cineasta tcheco Milos Forman (diretor deAmadeus e Um estranho no ninho), e novamente quer ser amante de sua ex-mulher que, mesmo casada com François (Michel Delpech), não resiste e se entrega, mas não abre mão de seu casamento. É um círculo vicioso a que estes personagens se submetem. Mas isso, não obstante, traz clichês franceses à tona - de que são promíscuos, libertinos, poligâmicos, etc, o que se intensifica no avanço da relação entre Vera e Henderson, onde, aliado a isso, a consciência e o bom-senso se deixam levar pela loucura e pelo egoísmo.
Trafegando entre momentos históricos - Primavera de Praga e pós 11.09 - o longa é uma história sobre o amor, o "desamor" e suas consequências, além de ser uma espécie de antítese ao título do filme. Mas até mesmo pela pluralidade de personagens, nenhum é muito profundamente trabalhado, o que nos impede de ter uma relação mais direta com a trama. Não é um filme ruim, mas de meio termo, com suas regularidades e irregularidades.
Quem me conhece, sabe o quanto gosto da banda Incubus e de como a música Drive - do álbum Make Yourself, de 2002 -é a minha preferida, até mesmo por ter sido a primeira que eu escutei deles. Música que escutei pela primeira vez em 2004 e que, desde então, nunca saiu do iPod.
A letra e toda a construção musical, com a voz de Brandon Boyd e Mike Einziger na guitarra, fizeram-me descobrir todo um universo musical - rock alternativo dos anos 2000 - que estava por vir. Inquestionavelmente, o videoclipe é também de uma beleza e sutileza ímpar.
O ano de 2004 também foi um ano marcante na minha redescoberta do cinema, com a minha releitura sobre o quão influenciável era a 7ª arte pra mim. Então com 19 anos, naquele ano senti que descobri o cinema de verdade e que havia aberto os olhos para algo que desde então passou a ser um dos grandes caminhos da minha vida.
E esses caminhos acabaram me levando a uma sala de cinema - MK2 - em Paris, com a minha namorada, no primeiro dia deste ano, para assistir Drive, dirigido por Nicolas Winding Refn (ganhador do prêmio de direção em Cannes pela obra) e estrelado por Ryan Gosling no papel do Motorista. Quem também me conhece, assim como sabe que Drive, a música, tem grande impacto pra mim até hoje e sempre terá, sabe também que Drive, o filme, causou um tornado avassalador dentro de mim e já está pra mim em várias das minhas listas de Top Top de filmes.
No filme, que conta com uma das melhores trilhas sonoras que eu já ouvi (com Cliff Martinez assinado a maioria delas, mas tendo o grande ápice com Nightcall do Kavinsky e Lovefoxxx), Gosling faz o melhor papel de sua carreira, como um personagem que alterna seus trabalhos de dublê com os de motorista em assaltos, com incrível habilidade, sem participar diretamente dos atos e sem pegar em armas
"I don't carry a gun. I drive".
Assim como em Drive, a música, o Motorista de Drive, o filme, deixa que o volante guie seu medo, suas incertezas e sua vida, sabendo que, o que quer que o amanhã traga, ele estará lá de olhos bem abertos, conduzindo-se e alcançando sua luz (ou não?), traçando um breve paralelo com a letra da música, mas sem sugerir que a música poderia ser utilizada no filme, o que eu não acho que seria possível, pois a temática de ambas as obras é diferente.
Sometimes I feel the fear Of uncertainty stinging clear And I can't help ask myself how much I'll let the fear take the wheel and steer (...) Whatever tomorrow brings I'll be there With open arms and open eyes (...) But lately I'm beginning to find that When I drive myself my light is found
Finalmente, o que quis aqui foi apenas homenagear essas duas obras que me marcam tanto. Porém, não sou insensato e, obviamente, trabalharei ainda mais em meus posts com o filme Drive, traçando seus paralelos com Sam Peckinpah, Marcas da Violência de David Cronenberg e Old Boy de Chan-wook Park.
Abaixo, deixo o videoclipe de Drive do Incubus, bem como o trailer de Drive, do Nicolas e Ryan.
Um dos grandes pais do cinema, ao lado dos irmãos Lumiére, pelo menos do que se há registro, foi escolhido como homenageado de uma exposição no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Georges Méliès, mágico do cinema vai remontar a trajetória do artista cujas invenções transformaram e expandiram a sétima arte (considerada desse forma por ser a junção de todas as demais artes).
A mostra, produzida pela Cinemateca Francesa, reúne uma coleção rara
do cineasta que é conhecido como “pai dos efeitos especiais” - ele
realmente trabalhava como mágico e levou suas técnicas ilusionistas às
telonas, o que impressiona, dado que fora realizado no início do século passado. A criatividade utilizada por Méliès é altíssima!
Entre os anos de 1896 e 1912, Méliès foi responsável por mais de 500 filmes, sendo alguns clássicos, como A Viagem à Lua, de 1902, que na exposição é exibido dentro de uma nave inspirada na ficção científica. Esse filme, por sinal, inspirado nos contos de Júlio Verne, guarda grande relação com a história da época em que fora idealizado: a presença de habilitantes na Lua, tratados como um povo primitivo e violento e que precisam ser derrotados através da luta armada remonta à época da colonização.
Além da exposição, uma oficina vai proporcionar aos visitantes a
experimentação de Méliès com uma instalação na qual grupos de até oito
pessoas poderão criar seus próprios filmes de até 30 segundos,
explorando a imaginação e as técnicas do mágico. O ingresso para a
instalação custa R$ 10.
Georges Méliès, mágico do cinema
De 4 de Julho a 16 de setembro de 2012
Museu da Imagem e do Som de São Paulo - Avenida Europa, 158 – Pinheiros – São Paulo
Horário: Terças a sábados, das 12h às 21h; domingos e feriados, das 11h às 20h
Ingresso: R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia) / Terça: Gratuito.
Abaixo confiram "A viagem à Lua", um dos clássicos de Georges Méliès.
Charles (François Berléand) é um premiado escritor de meia-idade, não especialmente bonito mas cercado de mulheres deslumbrantes, desbravador sexual. Já o jovem Paul (Benoît Magimel), de franja moderninha e queixo quadrado de galã, foi negligenciado pela mãe quando criança e vive à sombra do pai morto e milionário. São dois opostos, enfim. O intelectual e o sanguíneo, o velho e o novo, o casado e o solteiro, o amante bem resolvido Charles e o emasculado Paul.
Quem tem que escolher entre um e outro, como já adianta o título do novo filme do mestre francês Claude Chabrol, Uma Garota Dividida em Dois, é a bela Gabrielle (Ludivine Sagnier, de Swimming Pool). Garota de tempo de uma emissora de TV, dá pra ver pela cara dela que a moça vai subir rápido na carreira. Paul se apaixona à primeira vista, assim como Gabrielle rapidamente se deixa levar pelas frases feitas de Charles. O número de ilusionismo da bela cobaia serrada ao meio é a perfeita imagem poética do que Gabrielle vai enfrentar.
Como sempre um arguto cronista da sociedade, que não se furta a usar do humor visual mais sarcástico, como nos close-ups que dá na mãe de Paul, Chabrol comenta as castrações e as liberdades na alta roda pensante francesa em torno desse "mistério da humanidade que é a sexualidade", como define Charles.
Aos poucos o filme adiciona mais características, além daquelas primeiras, à polarização entre o escritor e o playboy. Entrega versus mentira, conhecimento versus conforto. São dois mundos que, de fato, não se conciliam. De um lado Charles diz, com a maior naturalidade, que não pode se divorciar da esposa porque "não tem nada contra ela", uma visão mais do que libertadora de uma instituição-clausura como o casamento. Do outro, por sua vez, Paul se inflama porque acredita no casamento em seu estado mais primal, tal o rito do sacrifício de uma virgem.
No fundo há em Uma Garota Dividida em Dois uma crítica ao conservadorismo cego de Paul e uma evidente simpatia pela permissividade sexual de Charles, mas ambos os lados têm seus momentos de cruel pragmatismo. E Chabrol, como todo grande cineasta francês, sabe sintetizar no rosto puro de Ludivine Sagnier esse universo de questões.
O ator Guillaume Canet, que atuou recentemente do longa Apenas uma noite, assina a direção e o roteiro de Até a Eternidade (Les petits mouchoirs no título original), trama sobre um grupo de amigos que se reúnem para férias à beira-mar, enquanto torcem pela recuperação de outro que está hospitalizado.
A primeira cena mostra Ludo (o ótimo Jean Dujardin, antes de ganhar o Oscar por O Artista) saindo de uma balada já pela manhã e, antes mesmo do fim dos créditos iniciais, sua moto já está debaixo de um caminhão e ele no hospital - a cena é muito bem construida e surpreende bastante. O acidente é um catalisador para o reencontro de um grupo de personagens que, apesar do acontecido, resolve manter as férias habituais na casa de um deles - Max (François Cluzet, de O último caminho, e que lembra um pouco Dustin Hoffman pela aparência).
Aos poucos e sutilmente, os personagens mostram as suas caras, ganham identidade e a simpatia do público – especialmente porque não são clichês ambulantes, são gente de carne e osso, com medos, ansiedades, inseguranças e desejos. Não simbolizam uma virtude ou um defeito, mas conseguem reunir qualidades e falhas. A tragédia começa a intercalar muito momentos com a comédia. Ao mesmo tempo que rimos em vários momentos, não conseguimos esquecer que Ludo ainda continua muito mal no hospital.
Max (François Cluzet, de O Último Caminho) é um rico dono de hotel que tenta não se incomodar com as investidas do amigo Vincent (Benoît Magimel, de Uma Garota Dividida em Dois), que anda confuso com sua sexualidade.
Marie (Marion Cotillard, de Meia-noite em Paris) também tem dúvidas sobre quem, como ou se deve amar. Já Éric (Gilles Lellouche), mulherengo inveterado, gosta de manter uma namorada, só por garantia. E Antoine (o comediante Laurent Lafitte) fica esperando que sua Juliette (Anne Marivin) perceba a bobagem que fez ao terminar o relacionamento deles.
É esse cuidado com os personagens que mais encanta no drama de Canet, que trata a todos com dignidade. Há uma harmonia no elenco que faz com que todos estejam no mesmo patamar.
Marion, que divide sua carreira entre filmes nos EUA (A Origem, Nine) e Europa (como o recente De Rouille et D’os), é uma presença luminosa aqui, enquanto Dujardin passa praticamente todo seu tempo em cena na cama de um hospital e com maquiagem pesada, por conta do rosto desfigurado com o acidente. Particularmente, gostaria de ter visto mais tempo dele em cena.
A longa duração de Até a Eternidade (mais de duas horas) não incomoda em nenhum momento, pois há muita força dos personagens e uma bela trilha sonora, mesclando clássicos dos anos 1970 (como Janis Joplin e The Weight) e músicas contemporâneas.
O filme estreiou apenas em São Paulo e apenas em uma sala - no Espaço Itaú do Shopping Frei Caneca.
Para Roma, com Amor, novo filme de Woody Allen, é inspirado no Decamerão, coleção de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio entre 1348 e 1353. A narrativa é composta por quatro histórias "paralelas" que envolvem traição e fama. O longa é repleto de referências e cópias de personagens e tramas presentes em longas não só de Allen, mas também do cineasta italiano Federico Fellini.
O triângulo amoroso formado por Jack (Jesse Eisenberg), Sally (Greta Gerwig) e Monica, uma dita femme fatale (mas interpretada por Ellen Page, convenhamos que não é muito plausível) é interferido por John (Alec Baldwin) - que atua como a subconsciência de Jack, ou apenas um espectro, ou seria Jesse a versão juvenil de John? -, prevendo o envolvimento do jovem com a amiga de sua namorada Sally.
Aqui fica tudo muito parecido com Igual a Tudo na Vida, pois os personagens de Eisenberg e Page são similares ao casal Jerry (Jason Biggs) e Amanda (Cristina Ricci). Ele, um jovem com suas aflições e inseguranças; ela, uma jovem atriz vulnerável, tempestuosa e incontrolável.
Outra trama envolve um casal recém casado do interior, que chega na cidade para tentar se estabelecer; a história é cópia adaptada do filme O Abismo de um Sonho, de Fellini. As semelhanças nas tramas e nos personagens são muito perceptíveis. A traição na obra de Allen é mais incisiva que no original de Fellini, com interferência da oscarizada Penélope Cruz, como Anna. Infelizmente, os personagens de Cruz e Baldwin, mesmo tendo um papel importante em seus segmentos, não têm finalizações, ficando perdidos na ação. Baldwin, por exemplo, inicia o filme em uma mesa com sua mulher e amigos, e depois se limita a ser um personagem "sombra" na história entre Jack, Sally e Monica. Por outro lado, mesmo estando muito bem, não entendo o porquê de se escolher uma atriz espanhola - Cruz - para interpretar uma mulher italiana, se poderia ser aproveitada a ocasião pra se escolher uma atriz italiana para o papel - Monica Belucci, talvez.
O italiano Benigni faz sua participação em um segmento, que tem como tema a fama súbita. O desenrolar de sua história é a que mais se aproxima do universo do diretor. Trata-se de um homem normal que da noite para o dia vira celebridade. Esta narrativa é uma crítica às convenções de consumo e das celebridades instantâneas que não tem nada a dizer nem um talento considerável para a fama. E em contraponto a esta história, um casal e suas famílias: de um lado a turista americana Hayley (Pill) e de outro o italiano Michelangelo.
A família de Hayley é composta por um diretor fonográfico aposentado (Allen) e por uma psiquiatra niilista (Davis). Já os pais do noivo são um casal simples, tendo o pai um talento nunca explorado. Os diálogos e circunstâncias desta parte da narrativa são levados aos absurdos que só Woody é capaz de levar para as telas. Os conflitos e situações de extremos são típicas do diretor em todo o longa. Mas também é possível encontrar muitos diálogos, frases e ações já visitadas por ele. Seu alter ego (sempre presente em seus filmes), incorpora os demais personagens.
A falta de relação entre os segmentos acaba deixando o filme bem chato de se acompanhar depois de algum tempo. As histórias, em tese, deveriam se passar no mesmo espaço de tempo, mas enquanto a história do casal italiano se passa em um longuíssimo dia, os segmentos dos personagens de Benigni, Eisenberg, Page, Allen e Baldwin se passam em alguns dias, talvez semanas. Essa falta de sincronia no tempo nos afasta ainda mais do desenvolvimento das narrativas.
Além disso, se o título do filme nos remete a uma homenagem a Roma, tal como fora feito em Meia-noite em Paris, essa homenagem contempla críticas - vide a da criação de celebridades pela mídia, apenas para ter o que falar, assim como acontece em BBBs e congêneros - que não sabemos se a intenção é remetá-las tão somente para Roma e seus habitantes ou se de uma forma geral.
Depois de seis anos sem atuar em seus filmes - a última vez foi em Scoop - o seu retorno foi infeliz. Nesse curto espaço de tempo ele fez filmes muitos bons (Vicky, Cristina, Barcelona e Meia-noite em Paris), em que as cidades-personagens ganharam homenagens muito especiais.
Mas isso não se repete em Para Roma, com Amor, que, diante da filmografia de Woody Allen, é muito irregular, pra não dizer ruim.