segunda-feira, 20 de maio de 2013

Os sabores do Palácio (Les saveurs du Palais)


O filme "Sabores do Palácio", dirigido por Christian Vincent, é baseado na história real da cozinheira do presidente francês François Mitterand, no Palais Elysee (Palácio do Governo). Hortense Laborie (Catherine Frot) é uma Chef pega de surpresa pelo convite para ser a cozinheira da principal comitiva do governo presidencial, após ter sido indicado por um famoso e renomado chef francês. Meio relutante, ela aceita o cargo.

A partir desse momento, uma série de omissões do roteiro enfraquecem a história do filme, haja vista que (i) poderia ter se dado uma importância mínima para a trajetória de Hortense antes do tão prestigiado convite, agregando, de certa forma, informações sobre o porquê de ter sido escolhida para a função, (ii) o roteiro poderia ter abordado a dificuldade que ela provavelmente teve com a utilização de todo um aparato tecnológico presente na cozinha que viria a trabalhar - considerando que, ao chegar ao seu posto no primeiro dia, desconhecia a maioria dos equipamentos lá presentes e sua forma de utilização, e (iii) ter utilizado uma história paralela, na qual a protagonista se encontra na Antártida, como Chef de cozinha da equipe francesa de pesquisadores lá presente.
Principalmente em virtude da escolha da história paralela, a história principal acaba perdendo em importância, profundidade e relevância, aliado ao fato da atriz Catherine Frot não demonstrar o carisma necessário para ensejar tanta adoração por onde passa - com exceção dos que trabalham na cozinha "secundária" do Palais Elysee, que a odeiam/invejam com voracidade.

Assim, e aliado ao fato da protagonista não dividir seu protagonismo no longa com os "sabores" do palácio, o filme se torna enfadonho e desinteressante em diversos momentos, salvo apenas quando contamos com a presença ilustre da comida originária da rica culinária francesa. Entretanto, a demonstração da burocracia presente no palácio - com o controle rígido de tudo o que se é feito -, além de todo o estresse que tal ofício (de Chef) origina, é um ponto positivo isolado, o qual, porém, não salva o filme.

domingo, 19 de maio de 2013

O 30º capítulo de Nadal x Federer



Final do Masters 1000 de Roma. Por ser a trigésima partida entre esses dois ícones do esporte – Roger Federer e Rafael Nadal, vale reportar mais esse capítulo na história do confronto de jogadores tão espetaculares. Entretanto, as estatísticas não sugerem um confronto parelho. Isso pois no saibro, contabilizam-se 12 vitórias para Nadal e 2 apenas para Federer. No geral, são 19 vitórias para Nadal e 10 para Federer.

Nadal, com 26 anos e 55 título de simples, é atual número 5 do mundo – tecnicamente, vez possa ser considerado o primeiro, pois perdeu muitas posições em decorrência de seu afastamento do circuito para tratar de seus problemas crônicas no joelho. Tem 23 títulos de Masters 1000, sendo o maior ganhador de torneio. Só em Roma foram 6 campeonatos.

Federer, por sua vez, com 31 anos e 76 títulos de simples, é considerado o melhor tenista da história – sim, ele foi, mas não é mais. Faz sua primeira final do ano. Atual número 3 do mundo. Tem 21 títulos de Masters e nunca foi campeão em Roma, tendo feito 3 finais, uma, inclusive, épica, contra Nadal em 2006, tendo perdido apenas no quinto set, após ter desperdiçado dois match-points.

Roger até agora não perdeu nenhum set na competição e teve jogos mais fáceis que Nadal. Será que está “babando” mesmo por esse título?

Dia de muito sol em Roma. Quadra Central. Nadal e seus tiques irritantes (ajuste da cueca, do cabelo e do nariz). O ace de Federer no primeiro ponto e o voleio do segundo sugerem um domínio do suíço? Primeiro game do Federer, com a ótima sugestão do saque e voleio, o que facilita muito o jogo para o Federer. Trocar bolas de fundo de quadra é suicídio frente a Nadal. Para quem acompanhou todos os 29 jogos entre os 2, sabe que Federer só tem chances contra o espanhol quando encaixa bem o voleio e drop shots.

Após confirmar seu serviço, Nadal consegue a quebra do saque de Federer com extrema facilidade no game seguinte, contando com um erro não forçado no break point. Incrível, mas se fosse com qualquer outro jogador, Federer teria tido, provavelmente, uma outra atitude em um ponto tão importante.

No game de “confirmação da quebra”, quatro erros do Federer e confirmação do serviço do Nadal, o que demonstra incrível instabilidade mental do suíço. A rede é sua principal inimiga, às vezes. Sabe que suas bolas tem que ser baixas e rápidas para diminuir o tempo de reação de Nadal, mas sua ansiedade e afobação o atrapalham muito. E quando suas bolas não param na rede, acabam sendo fundas demais e saem da quadra. Falta uma dosagem correta.

Já Nadal é um muro de concreto. Por ele nada passa e seu emocional é o mais forte da história do tênis. Suas bolas fundas no revés (esquerda) de Federer são o veneno que há anos funciona contra o suíço, sem que ele encontre muitas respostas concretas.

4-1 Nadal. 21 minutos de jogo, duas quebras e um set praticamente decidido. Nesse momento, com o seu jogo habitual, não há como Federer ganhar o jogo. Nadal criou uma zona de conforto intransponível por Roger, que sequer força algo diferente. Continua com erros não forçados, enquanto Nadal aposta sempre em seus balões de fundo de quadra para desestabilizar e, então, encaminhar o winner na jogada seguinte.

5-1 Nadal. 30-30, mais um erro não forçado de Federer. Set Point para o Nadal. Federer aposta em um voleio pífio, que vai longe. 6-1 para o Nadal em 23 minutos apenas. Muito mais por medo e ansiedade do que por uma surra, Federer perde o set de forma vergonhosa.

Com 15 erros não forçados de Federer, ele deu ao Nadal praticamente dois terços dos pontos ganhos pelo espanhol. Federer não insistiu no saque e voleio que lhe valeu o seu único game na partida até agora e isso tem sido uma péssima escolha.

Segundo set. 0-30 Federer. Bons ataques lhe renderam uma expectativa que foi abortada com um voleio mal executado e um erro na devolução. 30 iguais. Com o segundo erro não forçado de Nadal no game, surge a primeira chance de quebra de Federer no jogo, revertida com um ótimo saque aberto de Nadal, que sabe se livrar dessas situações como ninguém. Roger alterna poucos winners espetaculares com muitos erros pífios. Isso rende o game para Nadal, que controla tudo do funda da quadra com amplo domínio.

Onde estariam os drop shots e os voleios de Federer para fazerem o adversário sair da sua zona de conforto? Não existem.

14-40 para Nadal. Diferentemente de Federer, Rafael agarra suas chances com tudo que possui. Quebra o saque com uma pancada firme, contabilizando mais uma passada sensacional. 2-0 Nadal e o jogo vai se encaminhando para o fim, em um jogo totalmente apático de Federer.

Nadal faz 3-0, ganhando seu game de zero e três erros não forçados de Federer. Não temos sequer 40 minutos de jogo ainda.

No game seguinte, Federer, nitidamente envergonhado, melhora seu jogo para tentar evitar um pneu (6-0). Após muito tentar, conseguiu um game como muito esforço. Até agora, entretanto, Nadal ganhou o dobro de pontos de Federer no jogo.

Nadal conseguiu abrir 4-1, mesmo tendo cometido uma dupla falta e ter visto um approach esquisito, porém eficiente, de Federer, que resultou em seu smash. Porém, na sua última oportunidade de confirmação antes do iguais, Nadal conseguiu um excelente ponto, mostrando seu antídoto para uma nova investida em approach venenoso do suíço.

O ponto que define o iguais em seu próximo game de serviço é um resumo da desconcentração de Federer. Na tentativa de drop shot, sua bola sequer chega à rede. Grotesco. Em mais um erro, a oportunidade de break para Nadal, salva por Federer. É a primeira chance de break não concretizada por Nadal no jogo.

Depois de conquistar mais uma chance de break, vem um dos pontos mais sensacionais, com a quebra concretizada em uma passada do fundo de quadra, executada de forma magistral por Nadal. 5-1.
Nadal saca para jogo e tem de enfrentar um 0-40. Federer quebra. Um sopro de esperança para Federer?

Ele confirma seu serviço no game seguinte. 5-3. Nadal, mais uma vez, irá sacar para o jogo. Para o 7º título em Roma. Com 2 erros não forçados de Roger, Nadal abre 30-0. Mais uma madeirada de Federer, que está se tornando habitual, e Nadal chega ao match point. E não o perde. Nadal campeão em uma hora e nove minutos. Uma surra morna e básica que culminou em sua vigésima vitória contra Federer (e apenas 10 derrotas) e no sexto torneio ganho no ano (terceiro consecutivo).

Importante destacar que dos 59 pontos vencidos por Nadal no jogo, nada menos que 32 foram frutos de erros não forçados de Federer, o que resume o quão apática foi a atuação do suíço. Apenas para ilustrar, dos 36 pontos conquistados por Federer, apenas 8 foram atribuídos de graça por Nadal. Que imensa diferença daquela mesma final de Roma de 2006, que terminou apenas no quinto set com vitória de Nadal.

Nadal vibra como se tivesse vencido um jogo de exibição. Os jogos que realmente valeram pra ele neste torneio foram contra David Ferrer e Ernest Gulbis. E ontem teríamos uma verdadeira final, caso Djokovic tivesse passado por Berdych.

Hoje esse confronto – Nadal x Federer- não tem mais muita graça, infelizmente. Roger já não tem a ambição de ser superior a Nadal, ainda mais na terra batida do saibro, onde Nadal é o maior jogador de todos os tempos. Muito mais combativo é o confronto entre Nadal x Djokovic, o qual, embora haja vantagens também para Nadal (19 vitórias contra 15 derrotas), propiciam jogos muito mais interessantes.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A Humilhação - Philip Roth

"A Humilhação " é apenas o segundo livro de Philip Roth que li, confesso - o primeiro fora "O Avesso da Vida" - mas já me sinto totalmente fascinado pela sua literatura cheia de armas de grande impacto, que nos arremata com seu imenso sarcasmo, ironia e humor, sempre dosado com sexualidade e o vocabulário "pesado", mas de fácil compreensão.

A dor e a angústia da passagem do tempo, aliada à decadência física e mental do personagem, dá o tom do livro, que, embora curto (pouco mais de 100 páginas), nos vislumbra com ataques diretos de digressão, utilizando-se das dicotomias "depressão e felicidade", "otimismo e pessimismo", "prazer e impotência", "vida e morte". E Roth sabe lidar com todas essas mudanças de foco como poucos, dado seu amplo domínio da escrita literária.

O livro começa ecoando as palavras de Próspero, em “A Tempestade”: 

“Findou nossa função. Esses atores, / Tal como eu vos dissera, eram espíritos / Que agora somem sem deixar vestígio.” 

O protagonista, o famoso ator Simon Axler fracassara, justamente no papel de Próspero (e também no de MacBeth) e agora se via incapaz de subir ao palco, “preso no papel do homem que foi privado de si próprio, de seu talento, de seu lugar no mundo, um homem abjeto que não passava do somatório de seus defeitos”.

Ele que atuava por instinto, sem tantas regras e condições, agora, aos 65 anos, pensava demais, havia perdido a espontaneidade. Passa a interpretar com esforço sofrido, o que transparecia para o público. Desiste. Fecha-se por um tempo numa clínica psiquiátrica para não cair na tentação do suicídio. Ao sair, refugia-se numa casa de campo, onde passa o tempo sem fazer absolutamente nada, em quase negação da vida. Até que surge a filha de um velho casal de amigos, “uma combinação mágica de xamã, acrobata e animal” que lhe devolve o ânimo perdido. Saindo de uma longa relação lésbica, ela, 25 anos mais nova, o seduz completamente, fazendo com que se entregue ao novo papel de amante. Isso sem antes ter contato com alguém que mudaria muito sua vida - e a dela própria e de muitas outras pessoas.

Pegeen, a filha do casal de amigos, atravessa uma jornada de redescoberta. Por mais que tenha mais de 40 anos, suas opções ainda não estão muito bem estabelecidas. Aberta assim está às mais variadas experiências - inclusive a de voltar a ser heterossexual.

Axler, então, diante de sua possível salvação, trata de tornar sua amada mais feminina, comprando-lhe roupas e moldando suas atitudes. Com candura de adolescente, tenta convencer os pais, atores frustrados e talvez invejosos de seu sucesso, de que tem as melhores intenções. Porém, a ruína está a apenas alguns passos. Talvez sempre esteve onipresente. Uma jornada sexual tem início e, assim, parece que tudo está cada vez mais próximo do fim.

Ao fim, o que fica é o poético vazio da vida. Quando não temos mais no que nos apoiar e nos sustentar, o que acontece? Talvez sejam questionamentos que o próprio Roth, com quase 80 anos, se faça ao escrever seus novos livros.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Os impactos de Elena

Quem é Elena? A pergunta que ecoou nas redes sociais foi utilizada como marketing para promoção do filme recém lançado em São Paulo. Wagner Moura, Julian Lemmertz, dentre outros, nos perguntaram e a resposta, após assistir ao longa, é “não sei o bastante”, ao contrário sobre sua irmã, Petra Costa, diretora do filme, a quem acabamos sabemos muito mais do que Elena. Entretanto, saber sobre Petra é obter vestígios sobre quem fora Elena.

O motivo da realização do filme, podemos dizer, é a tentativa de descoberta. Tenta-se descobrir quem é Elena, destrinchando um pouco de sua infância, adolescência e o período de angústia vivido em Nova York, após tentativas não muito bem sucedidas de se tornar uma grande atriz e a culminação no suicídio aos vinte anos de idade. É claro que a tentativa de descoberta de uma pessoa antes tão próxima, que morreu há muito tempo – em 1990 -, acaba gerando uma jornada de autodescoberta.

Petra opta pela utilização de muita poesia, até por demais excessiva às vezes, seja através das palavras dialogadas por Petra, que, em muitos momentos, parecem mais sussurros quase inaudíveis (talvez por conta da qualidade do som da sala na qual assisti ao filme), seja através de belas imagens montadas de forma a refletir a angustia das protagonistas, além da trilha sonora melancólica e muito bem adaptada ao contexto da dor que ainda se perpetua, na medida em que o passado nebuloso vai sendo redescoberto através das cartas e vídeos, comprovando-se, de certa forma, que os mortos continuam vivendo através das lembranças.

Além de Petra e Elena, uma outra protagonista, a mãe delas, acaba optando por atuar em algumas situações, talvez por ter sonhado em ser atriz em sua juventude, fato que retira um pouco do caráter documental do longa. Mas, a que tipo de documentário exatamente assistimos? Com certeza, o mesmo não se vale das premissas convencionais, mas opta, ao contrário, não tanto por buscar respostas, mas sim o de ser intuitivo o bastante para nos deixar levar pelo ambiente quase onírico criado. E certamente há um grande mérito de Petra nisso. A bem da verdade, se Petra não busca respostas ou explicações, acabamos nós, espectadores, um pouco ávidos disso, principalmente com relação a algumas atitudes e omissões cometidas pelos pais.

De qualquer modo, tecnicamente falando, o longa, rodado com filme Super-8, uma câmera DSLR e um iPhone, tem imagens que deslumbram, aliadas a uma fotografia bem cuidada e planos bem montados. Tanto que recebeu muitos elogios – “uma das experiências mais agudas que já vivi no cinema” (Walter Salles) e “um filme que provoca 60 insights por minuto” (Fernando Meirelles) e prêmios no Festival de Brasília do ano passado, incluindo melhor documentário pelo júri popular, e menções especiais nos Festivais de Guadalajara e Zagreb.

Uma ótima e nova experiência, com certeza. Mas sem tanto exagero.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Reinventar-se.

Os dias em que vivemos são de extrema fúria. 

A busca incessante pelo sucesso em todos os seus aspectos nos faz perder o sono e a alegria.

Só que o que nos importa e o que nos move é o cumprimento de metas, a busca por salários mais vantajosos, mais status social, sentirmo-nos mais importantes, como se já não o fossemos.

15 horas de trabalho diariamente, convivendo com muitas pessoas que sequer suportamos, fazendo trabalhos que não vemos o menor sentido para nossas vidas. Reuniões sem propósito, momentos perdidos, uma parte da vida que vai para o lixo todo o dia.

O american way of life nos dominou de tal maneira, que queremos ser o espelho de outra sociedade, embutindo valores que não são nossos. Por vezes, vejo que pessoas se desacostumaram a sorrir, a serem felizes, a apreciarem as coisas mundanas.

Querem cada vez mais se distanciar de todos, com seus duplex e carros importados, empregadas, motoristas, babás, e toda uma tecnologia exagerada sempre da última geração em cada cômodo de seus apartamentos cada vez mais infinitos.

E onde estão as conversas no boteco com os amigos? 
A pelada do final de semana?
O cineminha a qualquer hora do dia? 
O deleite de ler um ótimo livro?

O romantismo da vida se foi para a maioria das pessoas. Hoje tudo se transformou apenas em uma sucessão de objetivos a serem cumpridos - carreira profissional e acadêmia bem sucedidas, filhos que mal serão vistos, contas bancárias polpudas, corpos sem gordura, comidas sem gosto, a eliminação do erro a qualquer custo, as roupas sempre mais caras e alinhadas, os restaurantes mais caros.

Vida sem a menor graça. Vida da qual me desvencilho de seu caminho. Quero a simplicidade de uma vida bem vivida, pois ela, até onde sabemos, é uma só.

Quero andar sem rumo, arriscar-me em projetos que poderão me deixar mais felizes.

Um amor. Um lugar. Ela, Camila, em nossa Paris.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Corporativo

Tensão.
Ansiedade.
Depressão.
Fobia Social.
Uma vida que não foi.

Mundo corporativo.

Mundo selvagem.
Caos de terno e gravata.
Caos do salto alto.
Uma vida que se foi.

Internet. E-mails.

Blackberry e iPhones.
Reuniões estratégicas.
Conferences.
O telefone que não para.
Gritos. Adrenalina. Derrota.

Salários milionários.

BMW e Mercedez.
Roupas de grife.
Extravagância.
Arrogância.
Vaidade.

Nâo há tempo pra nada.

Tudo é pra agora.
Tudo é urgente.
Por quê?

Vida corpor-inativa.

Vida selvagem.
Vida que não vi da janela fechada.

Os caçados

Na última sexta-feira, dois filmes muito bons estrearam nos cinemas de São Paulo - claro que sem a divulgação e número de salas de exibição que mereçam - "A Caça", de Thomas Vinterberg e "Depois de Lúcia", de Michel Franco.

Vendo os dois, o que mais interessa não é traçar um estudo pormenorizado do ponto de vista técnico cinematrográfico dos mesmos.

Disso já há aos montes por aí - inclusive, uns de linguagem quase que ininteligível para o espectador comum. Críticas herméticas, infelizmente, ainda dominam o cenário.

Críticos que escrevem para críticos.

Penso que talvez seja um pouco mais importante escrevermos uma crítica sem o "cinematografês" que domina esses textos. Isso afastas um pouco as pessoas, da mesma forma que o "juridiquês" afasta aqueles que não são iniciados nas ciências curídicas.

Eu, como advogado, sou totalmente contra ao uso de termos específicos e técnicos de forma geral.

Mas enfim, dada essa premissa, vamos aos filmes:

Depois de Lúcia é um filme sobre o bullying. Após um acidente que vitimou faltamente sua mãe, Alejandra e seu pai resolvem se mudar de cidade para superarem o drama. Em uma nova cidade, uma nova escola. Alejandra é totalmente sociável e desde logo acaba se relacionando com a maioria das pessoas da sua sala, sem nenhum problema.

Porém, numa viagem com a turma, Alejandra, já alcoolizada, transa com um dos meninos. Porém, com um grande erro. O menino resolve filmar a transa. O vídeo vaza para a escola inteira.

Alejandra agora é a puta, ainda mais quando o menino com quem transa é objeto de desejo de outras garotas do colégio.

Ela vira a caça e, vítima de um bullying grotesco, tem seu cabelo cortado, é infernizada na sala de aula e, no seu aniversário, acaba sendo forçada a comer um bolo de merda - literalmente, em uma cena muito complicada de assistir.

Mas, em que pese a crueldade e a desumanidade, em especial da juventude da classe alta, também é de se questionar a total falta de combatividade de Alejandra, que acaba aceitando viajar com seus "colegas" de escola em uma viagem para a praia - lá ela é estuprada e passa todos os horrores possíveis e impossíveis de serem imaginados.

Mas quem já sofreu bullying, sabe que não somos complascentes com a situação. Se não temos força pra lutar, ao menos tentamos de toda maneira possível evitar o contato com as pessoas que nos atormentam.



A outra caça é a de Lucas - personagem interpretado pelo mais que brilhante Mads Mikkelsen. Ele, que cuida de crianças no jardim de infância, acaba sendo acusado de abuso sexual pela filha de seu melhor amigo. A filha, que havia desenvolvido um amor até paterno por Lucas - haja vista que ele sempre estava lá enquanto o pai não estava - acabou confundindo seus sentimentos.

A acusação virou uma bola de neve - com milhares de pré-julgamentos. Afinal, as crianças nunca mentem.

Ele foi acusado de pedofilia, foi demitido da escolinha e começou a ser perseguido. Ninguém acreditava nele, salvo um amigo e seu filho. Ele chegou ao fundo, mas nunca desistiu de lutar. Talvez o que diferencie Lucas de Alejandra é justamente o fato de Lucas não ter desistido de provar sua inocência.

Porém, o preconceito das pessoas é resistente.

Por fim, talvez haja muito o que ser conversado entre Alejandra e Lucas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Bem vindo - Welcome

Bem-Vindo Poster
Fruto de uma parceria entre o ator Vincent Lindon e o diretor Philippe Lioret, Bem-vindo (Welcome, no título original) é um desses filmes que ficam com o espectador ao longo da trama e permanecem com ele após o fim da projeção, embora seja - e possivelmente é - clichê falar assim. Entretanto, a forma delicada de sua realização, aliada ao estilo minimalista, sem grandes discussões, como aborda o assunto, faz do filme uma preciosa obra, passada quase que de forma despercebida aqui no Brasil quando de sua estreia, em 2009.


Na projeção, Vincent Lindon interpreta o professor de natação Simon Calmat, que recebe na escola em que trabalha o jovem Bilau, interpretado por Firat Ayverdi, de origem curda, que, em uma tentativa de ir do Iraque, seu país de origem, para a Inglaterra, onde mora a garota por quem é apaixonado, acaba sendo parado em território francês juntamente com outros jovens, após três meses de viagem.

Entretanto, ao serem parados na França, acabam tornando-se pessoas sem país, com a origem apenas estampada em seus rostos, pois não podem ser encaminhados de volta ao Iraque, em virtude do país estar em guerra, tampouco são bem-vindos na França, por serem considerados ilegais, nem podem seguir, logicamente, para a Inglaterra.

Os cidadãos franceses também não podem ajudá-los, pois estariam incorrendo em crime, passível até mesmo de prisão. Logo, todos esses jovens tornam-se pessoas sem pátria, sem casa, sem rumo, sem ajuda.

Com todos esses fatores, Bilau começa a pensar em chegar na Inglaterra pela travessia do Canal da Mancha, a nado. Porém, ele não sabe nadar.

Ao conhecer uma escola de natação, começa a ter aulas com Simon, outrora nadador profissional, que além de ser seu professor, começa a tornar-se também um grande amigo e confidente. Simon, entretanto, tem seus próprios problemas - enfrenta a separação da mulher que ainda ama. As represálias começam a surgir também quando vizinhos e, posteriormente, as autoridades francesas descobrem a ajuda que é prestada por ele a Bilau.

Em suma, Bem-vindo é uma obra calma, sensível e poderosa sobre a coragem individual e sacrifício de seres humanos normais. Bilal e Simon são sinceros ao tentar fazer a coisa certa e não serem colocado fora de seu objetivo.O objetivo não é tomar uma posição sobre a imigração legal ou ilegal., mas apenas demonstrar que os imigrantes são humanos como todos nós, e têm as suas próprias histórias.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Só por hoje

Às voltas com traquitanas tecnológicas, o homem moderno perde-se na busca inalcançável da felicidade e do bem-estar, mascarado pela posse fugaz de objetos e prazeres instantâneos. O dia, que deveria ter vinte e quatro horas, passa a ser insuficiente para a quantidade de atividades e compromissos inadiáveis.

Corremos atrás de metas e prazos impossíveis de serem cumpridos.

Na tentativa de melhorar essa existência imediatista, o homem moderno busca na espiritualidade, na prática de esportes e na alimentação, teoricamente, balanceada, o equilíbrio destruído por ele mesmo, mas comete o erro crasso de transferir à busca pelo bem-estar as metas e os prazos exigidos pelo trabalho e pela tecnologia reinantes.

O ideal seria que nos atentássemos a viver o agora, um dia de cada vez, ligados somente ao presente. Mas esse ideal é destituído da graça de estar à frente, de ultrapassar barreiras oferecidas pela suposta vida moderna.

E assim seguimos, só por hoje, tentando sobreviver. Crentes de que, um dia, alcançaremos a almejada "vida melhor"....

....Vida esta que nunca pode ser o dia de hoje.

Por Camila Perroni, vulgo meu amor!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O abrigo - Take Shelter

Curtis LaForche (Michal Shannon) era um homem comum, humilde, com um emprego razoável que lhe permitia perceber um salário modesto como chefe de equipe de uma empresa de extração de areia, casado com Samantha (Jessica Chastain) e com uma filha de seis anos - Hannah (Tova Stewart) - que sofre de problemas auditivos (a atriz é, de fato, surda). 

Mesmo com as dificuldades de uma família de classe média, adicionado o problema de sua filha, eles são pessoas felizes e que se amam, sociáveis e que vão à igreja. Têm uma boa casa em uma pequena cidade de Ohio e um bom carro, o que lhes permite, de certa forma, contemplar o american way of  life.

Entretanto, mudanças estão por vir. Curtis começa a ter pesadelos, nos quais sua família e, até mesmo, seu cão estão incluídos, além de começar a ter visões que nos remetem ao início de uma grande tempestade apocalíptica. Diante disso, começa, enfim, sua paranoia em construir um abrigo para a sua família, como forma de defesa e de proteção.

Porém, construir um abrigo demanda tempo e dinheiro. No tempo que ele deveria trabalhar, está submerso em seu abrigo, que é pensado em cada pormenor de modo que não falte nada quando a grande tempestade chegar. E o dinheiro que ele deveria usar para custear o tratamento da filha ou mesmo para a viagem das férias, ele utiliza para comprar todos os equipamentos necessário para a construção do abrigo.

Por conta disso, os problemas começam a surgir em sua família e em seu trabalho. As pessoas ao seu redor  já não conseguem vê-lo como alguém "normal".  A obsessão e a paranoia já tomaram conta de Curtis, que não pensa duas vezes em dar seu cão ao irmão, após um pesadelo no qual o animal quase arranca seu braço. Além disso, seu acesso de ira com um antigo amigo aflora toda a capacidade interpretativa de Michael Shannon, deixando-nos impressionados com tamanha intensidade.

Não obstante, ele mesmo (Curtis), em um primeiro momento, pensa que algo está errado com ele, uma vez que esses eventos possam ser talvez um prenúncio de esquizofrenia, doença que atingiu sua mãe. Por isso, visita o médico da cidade e vai a sessões com uma psicóloga. A melhora vem, mas é passageira. Diante do anúncio de uma tempestade de se aproxima, ele e sua família vão para o abrigo. Será que as suas visões se justificariam? Será que ele não estava louco como todos imaginavam?

Para não estragar a experiência fílmica de assistir a este filme, indico que a partir daqui terão spoilers que sugiro serem lidos apenas por quem já assistiu a obra.

Feito essa observação, adentramos no abrigo e Curtis, após certo tempo, não tem coragem de sair do mesmo pra ver se a tempestade já cessou. Ele afirma que ela continua, mesmo sem ter certeza. Fica na vontade de Samantha a vontade de sair daquele lugar e ver o que ocorreu. Eles saem e vislumbram um céu ensolarado e resquícios do que pode ter sido uma tempestade com uma ventania muito forte, mas nada além disso e nada que justificasse toda a obsessão de Curtis.

Visto isso, até mesmo ele começa a duvidar de si e de suas visões e pesadelos, bem como o que poderiam representar. Porém, a ida à praia da família de Curtis irá provar o quão certo ele estava e que suas visões proféticas se tornarão realidade. O abrigo agora configura-se nos braços de sua esposa e de sua filha, em uma cena que mostra que não é apenas mais um filme qualquer, mas sim uma obra que quer e consegue nos transmitir algo a mais. A loucura, se era mesmo loucura, tinha sua justificativa plausível de ser.

Ao término do filme e mesmo depois de um tempo refletindo sobre o mesmo, a impressão que ficou foi a de um paralelo entre as visões apocalípticas de Curtis e as razões dos Estados Unidos da América em suas guerras contra o terrorismo - podem parecer loucos, mas no final, estariam certos (?). E, assim, seria uma forma de buscar justificativas pra tudo o que já se foi feito, como uma busca por um mal maior.

Entretanto, é apenas uma leitura que fiz, que não necessariamente é certa ou errada, que pode ou não ser a visão do Jeff Nichols quando escreveu o roteiro. Isso é algo que parte da impressão de cada um, mas que vale discutir as interpretações.

O abrigo, enfim, conta com uma direção praticamente impecável de Jeff Nichols (diretor de Shotgun Stories, que também conta com Michael Shannon), que também assina o roteiro, além de atuações exuberantes de Michael Shannon e de Jessica Chastain (que também atuou em A Arvore da Vida e Histórias Cruzadas). Também é bom destacar a trilha sonora do filme, composta por David Wingo.

É certamente um dos grandes filmes lançados neste ano aqui no Brasil (o lançamento nos EUA foi em Outubro de 2011), que foi diretamente para as locadoras sem ter passado pelo cinema, o que me causou grande tristeza. Assisti-lo na tela grande seria um evento prazeroso, mas que nos foi renegado por motivos, certamente, financeiros, haja vista que o longa não foi tão bem recepcionado em território norte-americano - o filme teve um custo estimado em cinco milhões e rendeu apenas pouco mais de 3 milhões, segundo estimativas do IMDB. Uma pena.


Ficha Técnica:

Diretor: Jeff Nichols
Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Heather Caldwell
Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin
Roteiro: Jeff Nichols
Fotografia: Adam Stone
Trilha Sonora: David Wingo
Duração: 120 min.
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Sony Pictures
Estúdio: Strange Matter Films / Grove Hill Productions / Hydraulx