Tensão.
Ansiedade.
Depressão.
Fobia Social.
Uma vida que não foi.
Mundo corporativo.
Mundo selvagem.
Caos de terno e gravata.
Caos do salto alto.
Uma vida que se foi.
Internet. E-mails.
Blackberry e iPhones.
Reuniões estratégicas.
Conferences.
O telefone que não para.
Gritos. Adrenalina. Derrota.
Salários milionários.
BMW e Mercedez.
Roupas de grife.
Extravagância.
Arrogância.
Vaidade.
Nâo há tempo pra nada.
Tudo é pra agora.
Tudo é urgente.
Por quê?
Vida corpor-inativa.
Vida selvagem.
Vida que não vi da janela fechada.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Os caçados
Na última sexta-feira, dois filmes muito bons estrearam nos cinemas de São Paulo - claro que sem a divulgação e número de salas de exibição que mereçam - "A Caça", de Thomas Vinterberg e "Depois de Lúcia", de Michel Franco.
Vendo os dois, o que mais interessa não é traçar um estudo pormenorizado do ponto de vista técnico cinematrográfico dos mesmos.
Disso já há aos montes por aí - inclusive, uns de linguagem quase que ininteligível para o espectador comum. Críticas herméticas, infelizmente, ainda dominam o cenário.
Críticos que escrevem para críticos.
Eu, como advogado, sou totalmente contra ao uso de termos específicos e técnicos de forma geral.
Mas enfim, dada essa premissa, vamos aos filmes:
Depois de Lúcia é um filme sobre o bullying. Após um acidente que vitimou faltamente sua mãe, Alejandra e seu pai resolvem se mudar de cidade para superarem o drama. Em uma nova cidade, uma nova escola. Alejandra é totalmente sociável e desde logo acaba se relacionando com a maioria das pessoas da sua sala, sem nenhum problema.
Porém, numa viagem com a turma, Alejandra, já alcoolizada, transa com um dos meninos. Porém, com um grande erro. O menino resolve filmar a transa. O vídeo vaza para a escola inteira.
Alejandra agora é a puta, ainda mais quando o menino com quem transa é objeto de desejo de outras garotas do colégio.
Ela vira a caça e, vítima de um bullying grotesco, tem seu cabelo cortado, é infernizada na sala de aula e, no seu aniversário, acaba sendo forçada a comer um bolo de merda - literalmente, em uma cena muito complicada de assistir.
Mas, em que pese a crueldade e a desumanidade, em especial da juventude da classe alta, também é de se questionar a total falta de combatividade de Alejandra, que acaba aceitando viajar com seus "colegas" de escola em uma viagem para a praia - lá ela é estuprada e passa todos os horrores possíveis e impossíveis de serem imaginados.
Mas quem já sofreu bullying, sabe que não somos complascentes com a situação. Se não temos força pra lutar, ao menos tentamos de toda maneira possível evitar o contato com as pessoas que nos atormentam.
A outra caça é a de Lucas - personagem interpretado pelo mais que brilhante Mads Mikkelsen. Ele, que cuida de crianças no jardim de infância, acaba sendo acusado de abuso sexual pela filha de seu melhor amigo. A filha, que havia desenvolvido um amor até paterno por Lucas - haja vista que ele sempre estava lá enquanto o pai não estava - acabou confundindo seus sentimentos.
A acusação virou uma bola de neve - com milhares de pré-julgamentos. Afinal, as crianças nunca mentem.
Ele foi acusado de pedofilia, foi demitido da escolinha e começou a ser perseguido. Ninguém acreditava nele, salvo um amigo e seu filho. Ele chegou ao fundo, mas nunca desistiu de lutar. Talvez o que diferencie Lucas de Alejandra é justamente o fato de Lucas não ter desistido de provar sua inocência.
Porém, o preconceito das pessoas é resistente.
Por fim, talvez haja muito o que ser conversado entre Alejandra e Lucas.
domingo, 30 de setembro de 2012
Bem vindo - Welcome
Fruto de uma parceria entre o ator Vincent Lindon e o diretor Philippe Lioret, Bem-vindo (Welcome, no título original) é um desses filmes que ficam com o espectador ao longo da trama e permanecem com ele após o fim da projeção, embora seja - e possivelmente é - clichê falar assim. Entretanto, a forma delicada de sua realização, aliada ao estilo minimalista, sem grandes discussões, como aborda o assunto, faz do filme uma preciosa obra, passada quase que de forma despercebida aqui no Brasil quando de sua estreia, em 2009.
Na projeção, Vincent Lindon interpreta o professor de natação Simon Calmat, que recebe na escola em que trabalha o jovem Bilau, interpretado por Firat Ayverdi, de origem curda, que, em uma tentativa de ir do Iraque, seu país de origem, para a Inglaterra, onde mora a garota por quem é apaixonado, acaba sendo parado em território francês juntamente com outros jovens, após três meses de viagem.
Entretanto, ao serem parados na França, acabam tornando-se pessoas sem país, com a origem apenas estampada em seus rostos, pois não podem ser encaminhados de volta ao Iraque, em virtude do país estar em guerra, tampouco são bem-vindos na França, por serem considerados ilegais, nem podem seguir, logicamente, para a Inglaterra.
Os cidadãos franceses também não podem ajudá-los, pois estariam incorrendo em crime, passível até mesmo de prisão. Logo, todos esses jovens tornam-se pessoas sem pátria, sem casa, sem rumo, sem ajuda.
Com todos esses fatores, Bilau começa a pensar em chegar na Inglaterra pela travessia do Canal da Mancha, a nado. Porém, ele não sabe nadar.
Ao conhecer uma escola de natação, começa a ter aulas com Simon, outrora nadador profissional, que além de ser seu professor, começa a tornar-se também um grande amigo e confidente. Simon, entretanto, tem seus próprios problemas - enfrenta a separação da mulher que ainda ama. As represálias começam a surgir também quando vizinhos e, posteriormente, as autoridades francesas descobrem a ajuda que é prestada por ele a Bilau.
Em suma, Bem-vindo é uma obra calma, sensível e poderosa sobre a coragem individual e sacrifício de seres humanos normais. Bilal e Simon são sinceros ao tentar fazer a coisa certa e não serem colocado fora de seu objetivo.O objetivo não é tomar uma posição sobre a imigração legal ou ilegal., mas apenas demonstrar que os imigrantes são humanos como todos nós, e têm as suas próprias histórias.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Só por hoje
Às voltas com traquitanas tecnológicas, o homem moderno perde-se na busca inalcançável da felicidade e do bem-estar, mascarado pela posse fugaz de objetos e prazeres instantâneos. O dia, que deveria ter vinte e quatro horas, passa a ser insuficiente para a quantidade de atividades e compromissos inadiáveis.
Corremos atrás de metas e prazos impossíveis de serem cumpridos.
Na tentativa de melhorar essa existência imediatista, o homem moderno busca na espiritualidade, na prática de esportes e na alimentação, teoricamente, balanceada, o equilíbrio destruído por ele mesmo, mas comete o erro crasso de transferir à busca pelo bem-estar as metas e os prazos exigidos pelo trabalho e pela tecnologia reinantes.
O ideal seria que nos atentássemos a viver o agora, um dia de cada vez, ligados somente ao presente. Mas esse ideal é destituído da graça de estar à frente, de ultrapassar barreiras oferecidas pela suposta vida moderna.
E assim seguimos, só por hoje, tentando sobreviver. Crentes de que, um dia, alcançaremos a almejada "vida melhor"....
....Vida esta que nunca pode ser o dia de hoje.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
O abrigo - Take Shelter
Curtis LaForche (Michal Shannon) era um homem comum, humilde, com um emprego razoável que lhe permitia perceber um salário modesto como chefe de equipe de uma empresa de extração de areia, casado com Samantha (Jessica Chastain) e com uma filha de seis anos - Hannah (Tova Stewart) - que sofre de problemas auditivos (a atriz é, de fato, surda).
Mesmo com as dificuldades de uma família de classe média, adicionado o problema de sua filha, eles são pessoas felizes e que se amam, sociáveis e que vão à igreja. Têm uma boa casa em uma pequena cidade de Ohio e um bom carro, o que lhes permite, de certa forma, contemplar o american way of life.
Entretanto, mudanças estão por vir. Curtis começa a ter pesadelos, nos quais sua família e, até mesmo, seu cão estão incluídos, além de começar a ter visões que nos remetem ao início de uma grande tempestade apocalíptica. Diante disso, começa, enfim, sua paranoia em construir um abrigo para a sua família, como forma de defesa e de proteção.
Porém, construir um abrigo demanda tempo e dinheiro. No tempo que ele deveria trabalhar, está submerso em seu abrigo, que é pensado em cada pormenor de modo que não falte nada quando a grande tempestade chegar. E o dinheiro que ele deveria usar para custear o tratamento da filha ou mesmo para a viagem das férias, ele utiliza para comprar todos os equipamentos necessário para a construção do abrigo.
Por conta disso, os problemas começam a surgir em sua família e em seu trabalho. As pessoas ao seu redor já não conseguem vê-lo como alguém "normal". A obsessão e a paranoia já tomaram conta de Curtis, que não pensa duas vezes em dar seu cão ao irmão, após um pesadelo no qual o animal quase arranca seu braço. Além disso, seu acesso de ira com um antigo amigo aflora toda a capacidade interpretativa de Michael Shannon, deixando-nos impressionados com tamanha intensidade.
Não obstante, ele mesmo (Curtis), em um primeiro momento, pensa que algo está errado com ele, uma vez que esses eventos possam ser talvez um prenúncio de esquizofrenia, doença que atingiu sua mãe. Por isso, visita o médico da cidade e vai a sessões com uma psicóloga. A melhora vem, mas é passageira. Diante do anúncio de uma tempestade de se aproxima, ele e sua família vão para o abrigo. Será que as suas visões se justificariam? Será que ele não estava louco como todos imaginavam?
Para não estragar a experiência fílmica de assistir a este filme, indico que a partir daqui terão spoilers que sugiro serem lidos apenas por quem já assistiu a obra.
Feito essa observação, adentramos no abrigo e Curtis, após certo tempo, não tem coragem de sair do mesmo pra ver se a tempestade já cessou. Ele afirma que ela continua, mesmo sem ter certeza. Fica na vontade de Samantha a vontade de sair daquele lugar e ver o que ocorreu. Eles saem e vislumbram um céu ensolarado e resquícios do que pode ter sido uma tempestade com uma ventania muito forte, mas nada além disso e nada que justificasse toda a obsessão de Curtis.
Visto isso, até mesmo ele começa a duvidar de si e de suas visões e pesadelos, bem como o que poderiam representar. Porém, a ida à praia da família de Curtis irá provar o quão certo ele estava e que suas visões proféticas se tornarão realidade. O abrigo agora configura-se nos braços de sua esposa e de sua filha, em uma cena que mostra que não é apenas mais um filme qualquer, mas sim uma obra que quer e consegue nos transmitir algo a mais. A loucura, se era mesmo loucura, tinha sua justificativa plausível de ser.
Ao término do filme e mesmo depois de um tempo refletindo sobre o mesmo, a impressão que ficou foi a de um paralelo entre as visões apocalípticas de Curtis e as razões dos Estados Unidos da América em suas guerras contra o terrorismo - podem parecer loucos, mas no final, estariam certos (?). E, assim, seria uma forma de buscar justificativas pra tudo o que já se foi feito, como uma busca por um mal maior.
Entretanto, é apenas uma leitura que fiz, que não necessariamente é certa ou errada, que pode ou não ser a visão do Jeff Nichols quando escreveu o roteiro. Isso é algo que parte da impressão de cada um, mas que vale discutir as interpretações.
O abrigo, enfim, conta com uma direção praticamente impecável de Jeff Nichols (diretor de Shotgun Stories, que também conta com Michael Shannon), que também assina o roteiro, além de atuações exuberantes de Michael Shannon e de Jessica Chastain (que também atuou em A Arvore da Vida e Histórias Cruzadas). Também é bom destacar a trilha sonora do filme, composta por David Wingo.
É certamente um dos grandes filmes lançados neste ano aqui no Brasil (o lançamento nos EUA foi em Outubro de 2011), que foi diretamente para as locadoras sem ter passado pelo cinema, o que me causou grande tristeza. Assisti-lo na tela grande seria um evento prazeroso, mas que nos foi renegado por motivos, certamente, financeiros, haja vista que o longa não foi tão bem recepcionado em território norte-americano - o filme teve um custo estimado em cinco milhões e rendeu apenas pouco mais de 3 milhões, segundo estimativas do IMDB. Uma pena.
Ficha Técnica:
Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Heather Caldwell
Produção: Tyler Davidson, Sophia Lin
Roteiro: Jeff Nichols
Fotografia: Adam Stone
Trilha Sonora: David Wingo
Duração: 120 min.
Ano: 2011
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Sony Pictures
Estúdio: Strange Matter Films / Grove Hill Productions / Hydraulx
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Mouchette
A cena de abertura de “Mouchette – a Virgem Possuída” (França, 1967) mostra um caçador, na floresta, preparando armadilhas para pássaros. Ele consegue capturar um, o bicho se debate em desespero, e o homem o solta. Trata-se de uma metáfora quase óbvia para o que a platéia verá nos 75 minutos a seguir: os moradores de uma aldeia rural no interior da França, tratando com desprezo e crueldade uma adolescente de 16 anos – a menina do título – cuja mãe está à beira da morte. O filme, sempre citado como um dos mais importantes entre os treze que Robert Bresson dirigiu, oferece uma experiência perturbadora.
A narrativa é estruturada como uma série de incidentes em que Mouchette (Nadine Nortier) sofre todo tipo de abuso dos aldeões – o filme inspirou o dinamarquês Lars Von Trier a escrever o polêmico “Dogville” (2003). As colegas de colégio riem dela, os adultos a tratam com agressividade. O pai de Mouchette não lhe dirige um único olhar. Apenas uma pessoa na vila gosta dela: a mãe. Só que a mulher sofre com um câncer terminal, e passa todo o tempo deitada na cama, gritando de dor. Mouchette estuda, precisa ganhar dinheiro, e quando chega em casa nada de descanso, pois é obrigada a cuidar da mulher enferma e do irmão recém-nascido.
Há um paralelo bíblico evidente entre a história de Mouchette e a parábola de Jó, narrada no Velho Testamento. Ele é um homem obrigado a suportar sofrimentos infindáveis em uma série de tentações demoníacas. A inspiração bíblica fica ainda mais clara quando se sabe que Bresson era um diretor profundamente católico, que seguia os ensinamentos de uma corrente religiosa chamada jansenismo. A doutrina prega a disciplina rígida de corpo e espírito para alcançar a iluminação, tendo alguma semelhança com o budismo. Em “Mouchette”, Bresson parece nos dizer que a vida é uma prisão, e que somente a morte liberta.
Ao provocar uma constante sensação de incômodo no espectador, por obrigá-lo a testemunhar o sofrimento permanente de uma adolescente atormentada, “Mouchette” acaba por se mostrar um dos melhores trabalho do diretor francês. Neste filme, Bresson constrói uma situação-limite, mas nem assim abandona o impressionante rigor formal e a abordagem distante, impassível e objetiva, das ações que observa. O longa-metragem poderia fornecer farto material para um melodrama, mas a secura da narrativa afasta as emoções. Se parece uma história triste, é porque o espectador desenvolveu por ela um sentimento que é só dele, e não está no filme.
Em “Mouchette”, a orientação que o diretor gostava de dar aos atores – atuar sempre com o rosto neutro, sem expressões faciais que possam sinalizar ao público o que se deve sentir – causa um efeito perturbador. Nós assistimos à crueldade com que todos os personagens do filme tratam a jovem protagonista, e sentimos raiva por ela, porque a face dela não demonstra reação. Nada. O resultado disso é uma sensação de desorientação, de vazio, de não saber o que está ocorrendo. Bresson exige que o espectador reaprenda a olhar. Um filme do diretor francês desarma a platéia, e “Mouchette” é um dos melhores nesse sentido.
O filme ganhou lançamento no Brasil em DVD pela Silver Screen Collection. O disco é simples e contém apenas o filme, restaurado, com boa qualidade de imagem (wide 1.77:1) e som (Dolby Digital 2.0). E vale ainda abominar o ridículo subtítulo nacional.
- Mouchette, a Virgem Possuída (França, 1967)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Maria Cardinal, Paul Hebert
Duração: 78 minutos
Fonte: http://www.cinereporter.com.br/criticas/mouchette-a-virgem-possuida/
Trailer feito por Jean-Luc Godard:
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Bem amadas (Christophe Honoré) e o Novo Cinema Francês
Na semana passada, fui ao Reserva Cultural assistir, com a presença inseparável da minha namorada, o novo longa-metragem meio sort of musical do diretor francês Christophe Honoré, Bem amadas, que se acostumou a fazer filmes dessa maneira, variando a narrativa convencional pelo uso frequente desse musical não tão convencional, no qual os personagens cantam de forma despretensiosa - um cantar falado, por assim dizer, típico francês.
É de se ressaltar que a direção de arte, figurino e cores são muito bem elaborados para a criação de um passado remoto e para a fidelização ao tempo histórico que Honoré busca retratar. Tudo é tratado com minúcia pra nos deixar vivenciar o passado.
Antes de falar do filme, gostar de fazer uma breve introdução sobre Christophe Honoré, que faz parte da "nova velha" geração do cinema francês, que se não bebe tanto da Nouvelle Vague de Truffaut e Godard, bebe da Nouvelle Vague de Chabrol e Resnais, fazendo um cinema bem autoral, pois sabemos que um filme é de Honoré quando assistimos.
Algumas características de seus filmes são a temática por muitas vezes voltada para relações homossexuais, conflitos familiares e amorosos, intensidade da melancolia e utilização, em alguns filmes, da linguagem cantada.
Nascido em 1970, Christophe escreveu alguns artigos para a famosa Les Cahiers du Cinéma e livros destinados a jovens adultos na década de 90. Escreveu duas peças de teatro e começou na direção em 2000, com o filme Nous deux. Com esse, já são onze filmes em sua curta carreira de sucesso. Particularmente, dentre esses onze filmes, destaco: Em paris, Canções de Amor, A Bela Junie, Não minha filha, você não vai dançar e o atual Bem Amadas, todos com a participação de Louis Garrel, com quem firmou essa fiel parceria.
Vale dizer que essa nova geração do cinema francês também conta com outros nomes de peso: Cédrik Klapisch, que dirigiu Albergue Espanhol, Bonecas Russas e Paris, seus trabalhos mais reconhecidos. E se Honoré tem sua parceria com Louis Garrel, Klapisch tem a sua com outro grande ator francês da atualidade, Romain Duris. François Ozon, contemporâneo de Honoré e Klapisch, também produz um belo cinema, com alguns filmes muito bons, tais como Oito Mulheres, Swimming Pool, O Tempo que Resta, Angel, O refúgio e Potiche.
Voltando a Bem-Amadas, o seu começo com "These boots are made for walking", onde mulheres experimentam os mais variados pares de sapatos, empolga. Estamos em Paris, na década de 1960, acompanhando Madeleine (Ludivine Sagnier, de Uma Garota Dividida em Dois, de Claude Chabrol), vendedora da loja de sapatos da cena inicial, que se torna prostituta ocasionalmente (prostitui-se para comprar seus sapatos e para não roubar), até ser resgatada por um médico tcheco, Jaromil (Radivoje Bukvic), com quem tem uma filha e se muda para a cidade de Praga.
Porém, não consegue ficar muitos anos lá: a infidelidade do marido se une aos problemas políticos que se passava na então Tchecoslováquia, no evento histórico conhecido como Primavera de Praga, período de liberalização política do país durante a época de sua dominação pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. Esse período começou em 5 de Janeiro de 1968, quando o reformista eslovaco Alexander Dubček chegou ao poder, e durou até o dia 21 de Agosto quando a União Soviética e os membros do Pacto de Varsóvia invadiram o país para interromper as reformas.
O passado e o presente fazem um diálogo na figura de Madeleine (na maturidade interpretada por Catherine Deneuve) e sua filha, Vera (Chiara Mastroianni, filha da atriz com Marcello Mastroianni). Ela busca um amor além do amor que sente/sentiu por Clément (Louis Garrel), e o seu recente envolvimento é com Henderson (Paul Schneider), músico norte-americano gay. Clemént, por sua vez, nunca escondeu que seu amor continua e, por isso, ainda sofre por não conseguir alcançar Vera.
Todo o amor, sua ausência, o sofrimento e alegria são pontos que culminam na expressividade musical de seus personagens. Cantando, talvez, você expressa sentimentos que não se desenvolvem no diálogo convencional. Mas, ao mesmo tempo que entendemos a sua utilização, parece-me que Honoré, em Bem Amadas, exagera ao concentrar as encenações musicais em alguns momentos do filme, o que pode cansar. Se fossem tratadas de forma homogênea durante toda a projeção, talvez não fosse um problema.
Seguindo, o pai de Vera volta para França, agora interpretado pelo cineasta tcheco Milos Forman (diretor de Amadeus e Um estranho no ninho), e novamente quer ser amante de sua ex-mulher que, mesmo casada com François (Michel Delpech), não resiste e se entrega, mas não abre mão de seu casamento. É um círculo vicioso a que estes personagens se submetem. Mas isso, não obstante, traz clichês franceses à tona - de que são promíscuos, libertinos, poligâmicos, etc, o que se intensifica no avanço da relação entre Vera e Henderson, onde, aliado a isso, a consciência e o bom-senso se deixam levar pela loucura e pelo egoísmo.
Trafegando entre momentos históricos - Primavera de Praga e pós 11.09 - o longa é uma história sobre o amor, o "desamor" e suas consequências, além de ser uma espécie de antítese ao título do filme. Mas até mesmo pela pluralidade de personagens, nenhum é muito profundamente trabalhado, o que nos impede de ter uma relação mais direta com a trama. Não é um filme ruim, mas de meio termo, com suas regularidades e irregularidades.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Drive - de Incubus a Nicolas Winding Refn e Ryan Gosling
Quem me conhece, sabe o quanto gosto da banda Incubus e de como a música Drive - do álbum Make Yourself, de 2002 - é a minha preferida, até mesmo por ter sido a primeira que eu escutei deles. Música que escutei pela primeira vez em 2004 e que, desde então, nunca saiu do iPod.
A letra e toda a construção musical, com a voz de Brandon Boyd e Mike Einziger na guitarra, fizeram-me descobrir todo um universo musical - rock alternativo dos anos 2000 - que estava por vir. Inquestionavelmente, o videoclipe é também de uma beleza e sutileza ímpar.
O ano de 2004 também foi um ano marcante na minha redescoberta do cinema, com a minha releitura sobre o quão influenciável era a 7ª arte pra mim. Então com 19 anos, naquele ano senti que descobri o cinema de verdade e que havia aberto os olhos para algo que desde então passou a ser um dos grandes caminhos da minha vida.
E esses caminhos acabaram me levando a uma sala de cinema - MK2 - em Paris, com a minha namorada, no primeiro dia deste ano, para assistir Drive, dirigido por Nicolas Winding Refn (ganhador do prêmio de direção em Cannes pela obra) e estrelado por Ryan Gosling no papel do Motorista. Quem também me conhece, assim como sabe que Drive, a música, tem grande impacto pra mim até hoje e sempre terá, sabe também que Drive, o filme, causou um tornado avassalador dentro de mim e já está pra mim em várias das minhas listas de Top Top de filmes.
No filme, que conta com uma das melhores trilhas sonoras que eu já ouvi (com Cliff Martinez assinado a maioria delas, mas tendo o grande ápice com Nightcall do Kavinsky e Lovefoxxx), Gosling faz o melhor papel de sua carreira, como um personagem que alterna seus trabalhos de dublê com os de motorista em assaltos, com incrível habilidade, sem participar diretamente dos atos e sem pegar em armas
"I don't carry a gun. I drive".
Assim como em Drive, a música, o Motorista de Drive, o filme, deixa que o volante guie seu medo, suas incertezas e sua vida, sabendo que, o que quer que o amanhã traga, ele estará lá de olhos bem abertos, conduzindo-se e alcançando sua luz (ou não?), traçando um breve paralelo com a letra da música, mas sem sugerir que a música poderia ser utilizada no filme, o que eu não acho que seria possível, pois a temática de ambas as obras é diferente.
Sometimes I feel the fear
Of uncertainty stinging clear
And I can't help ask myself how much
I'll let the fear take the wheel and steer (...)
Whatever tomorrow brings I'll be there
With open arms and open eyes (...)
But lately I'm beginning to find that
When I drive myself my light is found
Finalmente, o que quis aqui foi apenas homenagear essas duas obras que me marcam tanto. Porém, não sou insensato e, obviamente, trabalharei ainda mais em meus posts com o filme Drive, traçando seus paralelos com Sam Peckinpah, Marcas da Violência de David Cronenberg e Old Boy de Chan-wook Park.
Abaixo, deixo o videoclipe de Drive do Incubus, bem como o trailer de Drive, do Nicolas e Ryan.
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quinta-feira, 12 de julho de 2012
Mostra - Georges Méliès, mágico do cinema (MIS)
A mostra, produzida pela Cinemateca Francesa, reúne uma coleção rara do cineasta que é conhecido como “pai dos efeitos especiais” - ele realmente trabalhava como mágico e levou suas técnicas ilusionistas às telonas, o que impressiona, dado que fora realizado no início do século passado. A criatividade utilizada por Méliès é altíssima!
Entre os anos de 1896 e 1912, Méliès foi responsável por mais de 500 filmes, sendo alguns clássicos, como A Viagem à Lua, de 1902, que na exposição é exibido dentro de uma nave inspirada na ficção científica. Esse filme, por sinal, inspirado nos contos de Júlio Verne, guarda grande relação com a história da época em que fora idealizado: a presença de habilitantes na Lua, tratados como um povo primitivo e violento e que precisam ser derrotados através da luta armada remonta à época da colonização.
Além da exposição, uma oficina vai proporcionar aos visitantes a experimentação de Méliès com uma instalação na qual grupos de até oito pessoas poderão criar seus próprios filmes de até 30 segundos, explorando a imaginação e as técnicas do mágico. O ingresso para a instalação custa R$ 10.
Georges Méliès, mágico do cinema
De 4 de Julho a 16 de setembro de 2012
Museu da Imagem e do Som de São Paulo - Avenida Europa, 158 – Pinheiros – São Paulo
Horário: Terças a sábados, das 12h às 21h; domingos e feriados, das 11h às 20h
Ingresso: R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia) / Terça: Gratuito.
Abaixo confiram "A viagem à Lua", um dos clássicos de Georges Méliès.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Uma garota dividida em dois
Quem tem que escolher entre um e outro, como já adianta o título do novo filme do mestre francês Claude Chabrol, Uma Garota Dividida em Dois, é a bela Gabrielle (Ludivine Sagnier, de Swimming Pool). Garota de tempo de uma emissora de TV, dá pra ver pela cara dela que a moça vai subir rápido na carreira. Paul se apaixona à primeira vista, assim como Gabrielle rapidamente se deixa levar pelas frases feitas de Charles. O número de ilusionismo da bela cobaia serrada ao meio é a perfeita imagem poética do que Gabrielle vai enfrentar.
Como sempre um arguto cronista da sociedade, que não se furta a usar do humor visual mais sarcástico, como nos close-ups que dá na mãe de Paul, Chabrol comenta as castrações e as liberdades na alta roda pensante francesa em torno desse "mistério da humanidade que é a sexualidade", como define Charles.
Aos poucos o filme adiciona mais características, além daquelas primeiras, à polarização entre o escritor e o playboy. Entrega versus mentira, conhecimento versus conforto. São dois mundos que, de fato, não se conciliam. De um lado Charles diz, com a maior naturalidade, que não pode se divorciar da esposa porque "não tem nada contra ela", uma visão mais do que libertadora de uma instituição-clausura como o casamento. Do outro, por sua vez, Paul se inflama porque acredita no casamento em seu estado mais primal, tal o rito do sacrifício de uma virgem.
No fundo há em Uma Garota Dividida em Dois uma crítica ao conservadorismo cego de Paul e uma evidente simpatia pela permissividade sexual de Charles, mas ambos os lados têm seus momentos de cruel pragmatismo. E Chabrol, como todo grande cineasta francês, sabe sintetizar no rosto puro de Ludivine Sagnier esse universo de questões.
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