sábado, 16 de junho de 2012

Apenas uma Noite (Last Night)

A ruína de um casamento, traições, disfarces e antigas paixões que retornam são alguns dos temas abordados pela iraniana Massy Tadjedin, que estreia na direção de um longa americano com uma história própria no drama "romântico"  Apenas Uma Noite, má tradução do título em inglês (Last Night), como veremos.

Moradores de Nova York, a escritora Joanna (Keira Knightley) e o executivo Michael Reed (Sam Worthington) são casados há três anos, mas namoram desde os tempos de faculdade. No começo do filme, somos divididos, de forma intercalar, pela cena em que ambos estão voltando de taxi para casa, depois de terem ido a uma festa, cada em seu lado, presos em seus pensamentos e angústias, e o momento no qual se preparam pra ir à dita festa e como se comportam na mesma.

Na cena em que ambos estão ainda em casa, se arrumando para a festa, percebemos um certo descaso de Michael e algum distanciamento de Joanna. Ele até mesmo esquece o vinho dentro do taxi que os levava para a festa. Por qual motivo? Estaria ele pensando demais em como se portaria no encontro?

Bem, já na festa, Joanna conhece Laura (Eva Mendes), uma sensual colega de trabalho do marido, e imagina que há alguma coisa acontecendo entre os dois, até mesmo por flagra ambos conversando na varanda do prédio com certa intimidade. Como Michael e Laura farão uma viagem de trabalho no dia seguinte, e já haviam viajado antes juntos, a noite de sua véspera é de conflito, com Michael caindo na "armadilha" de Joanna, ao afirmar que, de fato, sentia atração por Laura. Com isso, Joanna acaba dormindo no sofá. No meio da madrugada, Michael vai até ela e propõe que ela volte para o quarto. Ela recusa. Então, ele a convida para comer algo na cozinha.

De manhã, a própria Joanna acha que está exagerando - talvez por tentar encontrar motivos para brigar, típico de um relacionamento em ruínas - e firma uma trégua com Michael. Depois que ele parte, ela vai tomar café na rua e, ao sair do café, dá de cara com um antigo e complicado amor do passado recente, o francês Alex (Guillaume Canet). Aqui, o encontro foi muito forçado e poderia ter sido mais sutil.

Ele a convence a ir em um jantar com ele no mesmo dia, sem muito esforço. O jantar marcado para essa noite, que leva Joanna a arrumar-se como nunca, desperta outras expectativas. Alex, por sua vez, não atravessou de volta o Atlântico à toa. Está disposto a confrontar Joanna sobre o que deu errado para eles. Mas seria apenas isso? Ele havia voltado por ela, por compromissos profissionais, porque seu relacionamento com uma pessoa em Paris não ia bem ou porque não conseguia ficar sozinho?

Além disso, os questionamento de Joanna naõ se limitam apenas ao casamento e ao seu amor por Alex, mas também às suas criações literárias, sobre as quais pairam dúvidas intermitentes.

O filme evolui sobre essas duas tentações em paralelo: a de Michael por Laura e a de Joanna por Alex, procurando criar expectativa sobre se vai ou não haver traição em qualquer dos casos. Entretanto, é difícil contemplar química sexual nos casais de "amantes". Michael não consegue demonstrar muitas emoções com Sam Worthington o interpretando, da mesma forma como Alex não consegue ser o francês sedutor. Mas, com certeza, não vemos química alguma entre Laura e Michael, o que deixa a relação deles aquém até mesmo do apelo sexual.

Entretanto, mesmo no papel mais ingrato dos quatro protagonistas, Eva Mendes consegue ser um pouco mais eficiente que os demais, ao tentar fugir do estereótipo de latina sensual que a toda hora tentam lhe atribuir.

Um bom momento está na participação de Griffin Dunne como uma espécie de conselheiro da dupla Joanna/Alex. Enquanto ele fica em cena, a cota de humor e inteligência sobe um bocado, muito embora, mais uma vez, falte sutileza no encontro entre os casais.

Em geral, não é um filme muito necessário, a não ser pela bela fotografia de Nova York, da boa edição de som e trilha sonora, que consegue nos situar na angústia dos personagens, muito embora os mesmos não consigam demonstrar tanto disso em cena, embora necessário fosse. A noite como personagem também é um ponto bem pensado, com praticamente todas as cenas sendo pouco iluminadas. O que sobra nesses quesitos técnicos, falta no frecor da interpretação dos personagens.

Por fim, as traduções de títulos para o português deveriam se ater literalmente aos títulos originais ou mantê-los (caso de Drive e Shame, recentemente). Apenas uma noite é bem diferente de A noite passada (tradução literal de Last Night), que traduz melhor os anseios da história.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sobrevivente

O Sobrevivente (Editora Nova Alexandria, 2003) foi incumbido a ser o sucessor da bem recebida adaptação de O Clube da Luta, escrito pelo americano Chuck Palahniuk. O autor é o nome mais lembrado — até mais que o diretor David Fincher — quando se comenta do longa-metragem estrelado por Brad Pitt e Edward Norton. O filme deu entrada ao escritor, que até aquele momento era só um cara mal compreendido, um marginal moderno da literatura americana, ao grande público. Marcado por uma linguagem controversa, Palahniuk passou a escrever muito e sem demora, repetindo sempre a fórmula de linguagem que o dera tanta visibilidade.

O homem da vez é Tender Branson, um dos poucos sobreviventes da Igreja do Credo — um misto de igreja que possui costumes puritanos e tendências suicidas com sociedade fechada — e não entende muito qual a sua função fora dos parâmetros estabelecidos pela sua religião. Não que a sociedade fora da Igreja também não imponha regras, mas a suposta liberdade de escolha que se diz haver, incomoda esse homem. Branson é um empregado esforçado numa mansão que nem ele mesmo conhece os donos, é maníaco por organização e sabe todos os truques para manter a ¨ordem¨. Mas toda essa falsa perfeição esconde lados sombrios dele como, por exemplo, sua identidade noturna de conselheiro para suicidas via telefone. No dia em que Tender resolve mudar as regras, sua vida simplesmente dá uma reviravolta rumo à situações pouco prováveis, mas realistas.

Como todo bom personagem anti-herói que se preze, Branson vive os momentos distintos de subida ao climax, indo até a máxima de poder — que ele acredita ter — e simplesmente decai, pois a queda é inevitável e ele sabe muito bem disso. Chuck Palahniuk usa um recurso muito interessante para mostrar a contagem regressiva da queda do último sobrevivente: o livro tem exatos 50 capítulos, ao chegar no 25 a contagem é regressiva, a cada capítulo o leitor sabe que o fim está próximo, há um desespero apático na voz de Branson.

A linguagem usada em O Sobrevivente é a mesma que já marcou a carreira do escritor americano, dominada por um fluxo de consciência completamente transgressor ela não poupa palavrões e nem elementos totalmente marginais que deixam o texto extremamente fragmentado, mas de fácil compreensão pelo leitor. Afinal isso se assemelha muito com o fluxo de falas cotidianas, claro, com um tom bem mais esquizofrênico.

As críticas permanecem muito parecidas com as abordadas em O Clube da Luta, a apatia do homem moderno e a fácil ilusão que o consumismo traz se fazem presentes nos personagens que o único fim passível é a queda. Chuck Palahniuk acerta todos em O Sobrevivente, deixando claro que todos somos moldados para seguir um padrão e quando há quebra disso, ocorre uma inevitável mudança –muitas vezes fatal — de percurso. Um livro de tirar o fôlego e acertar em todas as feridas.

Fonte: http://www.interrogacao.org/2011/04/livro-o-sobrevivente-chuck-palahniuk/
Escrito por Emanuela Siqueira

P.S. 1: Acabei de ler esse livro ontem e gostei bastante do tom crítico usado a assuntos relacionados a religião, burguesia, sociedade e o consumismo em todas as suas formas. A linguagem é fluída e dificilmente atravanca a leitura. Além disso, ponto positivo para a originalidade de se numerar as páginas do fim para o começo, como se estivéssemos em contagem regressiva, como bem aponta o texto da Emanuela Siqueira.

P.S. 2: O livro foi publicado novamente pela Editora LeYa em 2012, com traduação da Tatiana Leão.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Revista Cult » Sokurov claustrofóbico

Revista Cult » Sokurov claustrofóbico

O culto às marcas - Por Márcia Tiburi (Revista Cult - 06/2012)

O culto às marcas

Colunista Marcia Tiburi fala sobre a morte da expressão em tempos de fascínio religioso pelas grifes

A hipervalorização de bens ditos “de marca” é uma característica das sociedades contemporâneas.  Delas advém a distinção como forma de poder que fascina tanto ricos quanto pobres no cenário da dessubjetivação partilhada por todos, da loja de luxo ao camelódromo das falsificações.

A questão da distinção guarda em seu fundo um aspecto mais tenebroso, concernente ao presente da condição subjetiva da vida dos usuários devorados pelas antipolíticas autodestrutivas do consumismo transformado em regra.

Zerada a intersubjetividade que se definia na interação afetiva e comunicativa entre pessoas, o que resta são as coisas – e as pessoas como coisas – que podem ser compradas. Diga-se de passagem que as pessoas não compram coisas, mas sinais que informam sobre um capital simbólico. Coisificação da consciência é o nome velho para o fenômeno em que a concretude das coisas é substituída pela abstração da insígnia.

A fascinação de tantas pessoas por roupas, carros e até eletrodomésticos ditos “de marca” em nossa época é a declaração auto-exposta da morte do sujeito. Espantalhos de uma ordem que previu o assassinato do desejo, do pensamento e da liberdade – conjunto do que aqui chamamos de subjetividade – são incapazes de compreender seu descarado simulacro.

A morte por assassinato da subjetividade é percebida na redução do indivíduo a uma espécie de morto-vivo em três tempos. 1 – A destituição do direito ao próprio desejo: a publicidade colonizou a capacidade de sentir e projetar a autobiografia de cada um que é apagada na encenação da “vida fashion”. 2 – A desaparição da possibilidade de pensar: a publicidade oferece os jargões e slogans a serem repetidos sob a ilusão de ideias próprias. 3 – O direito à ideia-prática da liberdade é extirpado: resta o simulacro da escolha entre uma marca e outra. A ação torna-se acomodação ao mesmo de sempre.

A escolha entre o nada e a coisa nenhuma é bem disfarçada no poder de ostentar que promete redimir do buraco subjetivo. Não tendo mais o que expressar, alguém simplesmente “ostenta” um relógio caro, um computador moderninho, um carrão oneroso. Ou um piercing, um músculo forte. Tudo e cada coisa é reduzida à marca, emblema do capital e seu poder na era do Espetáculo.

Cultura da falsa expressão 

Podemos dizer que a ostentação é a cultura da pseudo-expressão no tempo das marcas. Se o poder de ostentar é proporcional ao esvaziamento da expressão, resta perguntar o que foi feito dessa potência humana? Ora, a expressão é fator subjetivo que se cria em um contexto social e político em que está em jogo a capacidade de “dizer alguma coisa”, de “dizer o que se pensa”, o que se “deseja”.

Só que fomos privados da expressão com a derrocada da formação de sujeitos desejantes, reflexivos e livres. Se as pessoas não dizem o que pensam, é porque a capacidade de pensar e dizer lhes foi extirpada. No lugar, podem travestir-se com a insígnia do poder fundamentalista das marcas da religião capitalista. A cruz para Cristianismo, a Estrela de Davi para o Judaísmo, a Lua Crescente para o Islamismo e uma marca famosa para o servo fiel do capital.

Os jovens são as principais vítimas dessa violência. Que sejam o “público alvo” quer dizer que são a presa fácil para um tiro certeiro. Os rebanhos de zumbis nikezados, abercrombizados, macdonaldizados, são arregimentados no exército de otários das massas manobradas, paramentados para o grande sacrifício sem ritual do capitalismo, em que a subjetividade é diariamente morta a pauladas.

A saída é a arte, a poesia, a negação ativa contra o uso e o consumo de marcas. A prática anti-capitalista é um ateísmo e começa com a recusa aos seus deuses como simples profanação cotidiana.

Amém

Sou grande admirador da arte de filmar e dos temas abordados por Costa-Gravas, mas há anos fui bastante relutante em assistir a Amém, filme no qual ele aborda o posicionamento da Igreja Católica no holocausto ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, bem como seu relacionamento com o Nazismo.

Tendo assistido ontem, percebi que minha relutância não tinha fundamento.

Trata-se de um filme excepcional, tanto sob o ponto de vista estético, como pelo contexto histórico ao qual somos alçados para entender a discussão que é suscitada por Costa-Gravas, que é um dos grandes mestres no que se refere a filmes de abordagem política (vide Z, que denúncia abusos na ditadura militar na Grécia, e Desaparecidos, Um Grande Mistério, que aborda a ditadura de Pinochet no Chile).

Propriamente sobre o filme, o agente nazista Kurt Gerstein, especializado em higienização, é enviado a Auschwitz, na Polônia, para acompanhar o tratamento dado aos judeus deportados. Aterrorizado com o massacre que até então desconhecia, retorna a Berlin certo de que deve denunciar a ação do governo de Hitler. Não lhe dão ouvidos, porém, os pastores da Igreja protestante da qual faz parte, e vira-lhe as costas a Igreja católica, cuja ação do Papa seria essencial para um recuo da política nazista. Sob pressão pelo cargo que ocupa (e pelas aparências que precisa manter), e recusando-se a deixar a Alemanha, Gerstein será ajudado pelo jovem padre jesuíta Riccardo Fontana, cuja proximidade ao Papa Pio XII poderia fazer chegar ao mundo as informações da matança em escala industrial de seres humanos na Alemanha. Assim, enquanto aguarda a ação de Fontana, e do embaixador da Suíça junto ao governo americano, Gerstein arrisca a própria vida retardando a fabricação do gás Zylon, utilizado nas câmaras, e sendo cada vez mais pressionado a aumentar a "produtividade" nos campos. A figura opressora no filme é caracterizada pelo personagem do Médico, que sarcasticamente sorri para aqueles que mal sabem que irão para a câmara de gás.

Vale dizer que antes da matança desenfreada aos judeus, as câmaras eram "testadas" em deficientes mentais, sendo que a sobrinha de Gerstein morreu desse forma. A desorganização do governo nazista na ora de explicar a causa da morte dos milhares de deficientes foi um grande estopim para que iniciasse uma "investigação" por parte de Gerstein sobre o ocorrido.

Amém recebeu críticas tanto da instituição chefiada pelo Papa quanto da imprensa. Falou-se que o filme tratava de assunto batido, sem trazer elemento novo ao debate. Reclamou-se de estilo "conservador", narrativa tradicional e falta de contundência, comparando este a outros filmes do diretor. Por outro lado, defendeu-se que Amém estaria na verdade falando do presente utilizando o passado, sendo seu verdadeiro alvo a omissão da comunidade mundial diante da miséria que a globalização financia.
No pôster de Amém (criado por Oliviero Toscani, o publicitário polemizador da campanha da Bennetton), fundem-se cruz e suástica, imagem forte que representa essa relação Igreja x Nazismo abordada no filme.

Se havia uma justificativa para tamanha omissão da Igreja, essa seria caracterizada como o temor, mostrado no filme, do Vaticano no caso de um pronunciamento direto contra a Alemanha. A resposta, uma imediata invasão de Roma, representaria não só o fim de uma ajuda aos perseguidos judeus, como colocaria os próprios católicos na lista de perseguidos.

Em entrevistas, Costa-Gavras lembrou que não havia então sindicatos, nem imprensa organizada; sobrava à Igreja a obrigação de informar o mundo e posicionar-se frente ao genocídio (mais de 4.000 pessoas enviadas por dia às câmaras de gás). Há quem diga tratar-se de conflito mais ético do que político. Mas Eugenio Pacelli, o Pio XII, estava longe de ser o ingênuo que o filme apresenta (que mais se preocupava com a destruição de uma Biblioteca do que com o massacre que ocorria, em determinada cena). 

Em artigo, o historiador Francisco Carlos Teixeira lembra que, antes do papado, sua atuação como núncio em Berlim permitiu a Pacelli relacionar-se com a alta hierarquia militar alemã. Não lhe eram desconhecidas as posições e ações nazistas. Era inclusive dado como certo que, eliminados os judeus, Hitler não tardaria em avançar sobre os cristãos.
Violência e terror, presentes em cada cena, jamais chegam diretamente ao espectador, mas pelos olhares de Gerstein, da movimentação de seus músculos faciais (que "sempre o traem"). Muito bem interpretado por Ulrich Tukur, o personagem é o herói típico dos filmes de temática social, que se recusa a fechar os olhos e luta praticamente sozinho contra a injustiça de seus pares. Podemos até mesmo interpretar que o padre e o médico são as facetas "boa" e "má" de Gerstein, haja vista ser ele o único personagem que, de fato, existiu.

O filme mostra também a maneira como o governo alemão manipulava a opinião pública, principalmente as crianças, que adoravam a saudação nazista. Em canções infantis ou livros didáticos, o que se vê é o convencimento através da sugestão de uma ideologia.

Todo o conjunto de detalhes de Amém fazem desse filme praticamente obrigatório pra quem se interessa pelo assunto, pois é também um ponto de partida para pesquisa mais aprofundada sobre o tema.


domingo, 10 de junho de 2012

O Vendedor

Morte e sangue. Assim o filme começa, quando vemos um animal sendo recolhido de uma rodovia, já morto. Sangue para todo lado. Logo após, uma pessoa pega uma peça e a coloca juntamente ao carro destruído.

Essa cena inicial, cortada para um momento na vida rotineira de  Marcel Léves (Gilbert Sicotte), homem com 67 anos que trabalha como vendedor de carro na congelante cidade de Lac Saint-Jean, em Quebéc, já nos deixa com a angústia, que se prolongará até meados do filme, até descobrirmos quem dirigia o carro que sofreu o acidente e o que, de fato, aconteceu.

Até termos essas respostas, seguimos os passos de Marcel, desde o seu trabalho, onde é um profissional bem sucedido, sendo considerado seguidamente o melhor vendedor da loja, até os momentos em que passa com sua filha Maryse (Nathalie Cavezzali) e seu pequeno neto Antoine (Jeremy Tessier). Marcel nasceu para o que faz e se realiza com isso. Poderia ter se aposentado, mas não o fez. Sem sua mulher, o que faria de seus dias como aposentado, ele questiona em determinado momento.

Além de sua vida, nos é mostrado certo reflexo da crise financeira mundial (ou, ao menos, um paralelo), com a falência de uma grande empresa local que deixa muitos trabalhadores desempregados e afeta, consequentemente, a vendas de carros e outros pontos da economia local. Manifestações são feitas e, por muitas vezes, o filme possui cortes pra nos informar a quantidade de dias que perdura o desemprego dessas pessoas.

Um ponto que podemos considerar importante para a trama é quando determinado personagem, ao levar seu carro para a manutenção, na loja na qual Marcel trabalha, é abordado por este pra que venda seu carro antigo e adquira um novo. Mesmo desempregado, Marcel o aconselha a seguir com essa proposta. Primeiramente hesitante, o personagem acaba aceitando.

Aqui identificamos críticas a determinadas atitudes que são habitualmente tomadas: Marcel não se importa tanto com o fato do personagem estar desempregado. Quer vender um novo carro para se manter como o melhor funcionário - talvez um medo, comum aos idosos, de se tornarem menos produtivos ou inúteis. O personagem, de forma irracional, aceita uma nova dívida, mesmo estando desempregado, numa clara falta de planejamento financeiro. Além disso, como a instituição financiadora poderia conceder crédito para a aquisição de um carro para alguém que não possui emprego?

Sempre presente, o frio da cidade acaba de tornando um personagem contínuo que depois acaba se infiltrando em Marcel, quando a tragédia chega.

O Vendedor é um filme que, infelizmente, poucas pessoas assistirão, até mesmo por sua pouca divulgação e distribuição. Possui alguns pontos que considero um pouco maçantes, principalmente na metade do filme, onde a rotina de Marcel se apodera do filme e entedia um pouco. Mas é um filme que traz algumas discussões e críticas, além de ser filmado com cuidado por Sébastian Pilote.

No final, crianças brincam de bicicleta e passam por cima de placas que eram usadas pela manifestação dos desempregados, o que poderíamos considerar como uma constatação de que a nova geração já nasce fadada às consequências da crise atual e do nosso desleixo com a economia, meio ambiente, etc.

Em cartaz no CineSESC.
 

Deus da carnificina

A ruptura do racional, quando perdemos nossos roupantes do politicamente correto e tudo que nos fora ensinado sobre respeito e educação, quando viramos animais selvagens e partimos para o canibalismo e para a carnificina, ao menos verbal.

Em síntese, é sobre esse momento de ruptura que trata o novo filme de Roman Polanski, Deus da Carnificina, que estreou em São Paulo na última quinta-feira, após longa espera, haja vista que, especificamente, em Paris, assisti a esse filme em dezembro do ano passado.

Haja vista ser adaptado da peça teatral de Yasmina Reza, conseguimos visualizar na película a grande influência do teatro na montagem do filme, que fica centralizado praticamente em poucos cenários: o parque onde há o estopim do problema, quando o filho dos personagens interpretados por Kate Winslet e Christoph Waltz bate com um bastão na cabeça do filho dos personagens interpretados por John. C. Reilly e Jodie Foster, a sala, cozinha e banheiro do apartamento de Michael (John) e Penélope (Jodie), bem como o corredor do mesmo.

A partir do momento da briga, ocasionada pelo fato de um não poder fazer parte da "gangue" do outro, partimos para o encontro, já na casa dos pais do filho agredido - Michael e Penélope. Penélope (Jodie) -, onde os mesmos estão escrevendo (formalizando)  sobre o ocorrido, sob os olhares de Nancy (Kate) e Alan (Christoph). Surge aqui já uma discórdia com relação a determinado termo usado pra descrever de que forma o agressor portava a "arma".

Entretanto, todos ainda se comportam de maneira respeitosa e educada. Tudo teria ocorrido harmonicamente se Nancy e Alan tivessem deixado o apartamento logo em seguida, mas é justamente no momento do retorno para um café que a "carnificina" tem início. Começamos a ver Alan - claramente inspirado no advogado empresarial moderno - sempre preso ao seu Blackberry, começando a deixar todos loucos, quando o aparelho toca seguidamente para resolver questões ligadas a um estudo que fora feito contra o uso de determinado produto de um cliente do ramo farmacêutico (aqui encontramos uma crítica a esse ramo, claramente mais voltado para o lucro do que com o bem-estar de seus consumidores).

O uso contínuo do Blackberry gera cena muito engraçadas, na medida que vai começando a atormentar os outros personagens, principalmente a sua mulher, Nancy, que não se sente bem, vomita, e, a partir disso, começa a se tornar outra pessoa. Quando Michael decide beber uísque, acompanhado posteriormente pelos outros personagens, conseguimos ver quem eles realmente são quando o álcool os ajudam a externalizar suas verdadeiras opiniões. Falam o que querem falar, sem se preocupar em como serão compreendidos. A ternura dá lugar à grosseria. Vira um UFC verbal.

Durante o filme, podemos dizer que  vários "times" são formados. A cada momento um personagem está concordando com um e discordando de outros. Nos momentos seguintes os cenários vão se invertendo, o que é muito interessante. Até mesmo Penélope perde sua razão e entrega-se à selvageria, não importando mais se ela flagra Alan apenas de cueca. Todos eles já estão bastante íntimos no ápice da raiva.

O filme é curto, por isso todas as passagens dos estados emocionais dos personagens são muito rápidas. Isso poderia ser mais sútil. A forma adotada é muito funcional no teatro, mas no cinema talvez fosse necessária uma maior sutileza no desenvolvimento dos personagens, assim como foi feito em Anjo Exterminador do Buñuel e Quem tem medo de Virgínia Woolf de Mike Nichols.

Mas não por isso o filme deixa de ser bem interessante, pela maneira como nos diz, até que bem diretamente, que somos meros atores em nossas vidas reais, em muitas vezes, em prol do relacionamento social ao menos suportável - ou você nunca teve vontade de falar boas verdades para um chefe qualquer?

É certo, entretanto, que até mesmo crianças conseguem resolver determinados assuntos com mais facilidade do que adultos.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Essential Killing

Um homem, talvez afegão, interpretado por Vincent Gallo é apanhado pelo exército americano em um  deserto não especificado, talvez Afeganistão, após ter assassinado 3 soldados americanos sem misericórdia, e é levado como prisioneiro de guerra para um país da Europa oriental (daqueles que fecham os olhos aos direitos humanos). Ele sofre tortura, mas nada fala e assim prossegue durante todo o filme.
 
Devido a um acaso consegue fugir e o filme é isso: a fuga de um homem por uma paisagem cheia de neve, impiedosa, inóspita, quase desabitada. Além do frio e do exército que o persegue, o fugitivo tem que lutar contra a fome e contra quem se lhe atravessa, não hesitando em ir deixando um rastro de sangue pelo caminho, matando de forma essencial - daí o nome do filme.

Vale destacar uma imagem de Gallo buscando o leite de uma mãe, a qual é polêmica e filmada com coragem. E mesmo quando, quase já morto, é encontrado por uma pessoa, esta é muda, intensificando ainda mais o silêncio.

Não obstante a premissa politica, ‘Essential Killing’ é muito mais um filme de ‘ambiente’, até de suspense , do que de argumento. E muito menos de ‘diálogos’: Gallo não tem uma única fala durante todo o filme, o que não impediu que trouxesse o prémio para o melhor ator do Festival de Veneza do ano passado. E Skolimowski trouxe o prémio especial do júri (presidido por Tarantino) para este filme minimal, mas impressivo e visualmente marcante.
 
Um grande filme que estreou em São Paulo somente no Cine Olido e já não está mais em cartaz. Uma boa alternativa é buscar via torrent.
 

domingo, 3 de junho de 2012

Hasta la Vista

Hasta La VistaExistem determinados temas que são difíceis de tratar. Três amigos que querem perder a virgindade é um tema já bastante explorado pelo cinema americano, mas se esses três amigos são deficientes físicos, aí tudo fica mais complicado, até mesmo por conta da idiotice do politicamente correto que nos é implantado quando nascemos.

É disso que trata Hasta la Vista, dirigido por Geoffrey Enthoven e com roteiro assinado por Pierre De Clercq.

Lars (Gilles De Schrijver) sofre de câncer terminal e está preso a uma cadeira de rodas, Philip (Robrecht Vanden Thoren) é tetraplégico e Josef (Tom Audenaert) está praticamente cego (vê pouco do mundo com a combinação de óculos e uma lupa, e mesmo assim com extrema dificuldade). Suas limitações, no entanto, não os impedem de empreender uma viagem quando descobrem a existência, na Espanha, de um bordel especializado em "pessoas como nós", como define Philip.

Não querem morrer virgens. Naturalmente não podem contar com a colaboração de pais e médicos para tal projeto. Têm de se virar sozinhos. Ou praticamente sozinhos.

O filme é um sucesso justamente em não tratar os personagens como coitados ou pessoas inferiores. São pessoas que apenas têm limitações físicas, mas que não as impedem de tirar sarro um do outro por conta disso. Todos temos nossas limitações, no final das contas.

Se somos solidários com eles na empreitada que resolvem enfrentar, também podemos criticar quando, vestidos com os roupantes de suas deficiências, resolvem gozar de outras pessoas. Mas logo são reprimidos e descobrem que todos os seus atos têm consequências.

O filme conta com o ingrediente de outras pessoas, que tornam a história ainda mais cativante. A irmã de Lars, que não quer saber se ele é doente ou não, em um primeiro momento, mas apenas quer que ele enxugue os pratos, e de Claude, a motorista que conduz os protagonistas à sua jornada. Ambas, no decorrer do filme, se mostram pessoas muitos doces.

Ainda é incrível pra mim quando em determinada cena os três aparecem sem suas deficiências, nos mostrando a possibilidade de atuações incríveis dos atores, em especial o que interpreta Philip, que é tetraplégico na obra.

Talvez o filme pudesse ter terminado na cena em que Philip encontra Lars pela manhã na praia, em meio às ondas, dando um caráter menos esperançoso ao filme. Mas talvez, de qualquer modo, a esperança, não só pra eles como pra todos, seja, de fato, necessária.

Enfim, Hasta la Vista é uma poesia do cinema moderno.Obrigatório.


IMDB - Hasta la Vista

sábado, 2 de junho de 2012

Um Verão Escaldante

"Um Verão Escaldante" é o novo filme de Philippe Garrel, diretor que faz cinema tendo como inspiração os preceitos da Nouvelle Vague e do cinema francês atual, em geral. Ou seja, é um filme focado basicamente no drama dos seus pergonagens e em suas conversas, devaneios, etc.

Mais uma vez, assim como fez em "Amantes Constantes" e "A Fronteira da Alvorada", Philippe se recorre a Louis Garrel, seu filho e ator coqueluche do cinema francês, ao lado de Romain Duris, como protagonista de "Um Verão Escaldante".

Em síntese, Louis é o pintor Frédéric, casado com a atriz Angèle (Monica Bellucci). Quando conhece Paul (Jérôme Robart), aspirante a ator, convida-o para se hospedar com o casal. Este traz também sua namorada, Élisabeth (Céline Sallette).

No começo do filme, somos informado que Louis morreu e que tudo que seria contado é um flashback da história até aquele momento. Somos convidados a entrar nela através de Angèle logo no começo e percorremos a história de como Paul conhece Élisabeth, de como Frédéric conhece Paul e, posteriormente, como cada homem conhece a mulher do outro, no verão escaldante de Roma, que se não é tão demonstrado como escaldante na manifestação do clima, o é através do sentimento e emoção de seus personagens.

É uma fábula do amor e suas consequências. Da entrega, da paixão, das traições e do fim. É filmado por Garrel com algumas constantes: a câmera que não segue seus personagens quando estes somem da cena - e aqui podemos conceber a câmera focada na imagem vazia ou um corte brusco para outra cena -, e o modo como os personagens em muitos momentos ficam de costas para o espectador em uma conversa, nos tornando cúmplices de tudo o que ocorre, de certa maneira.

Se o suicídio era o pensamento de Élisabeth antes do início do relacionamento com Paul, essa figura da morte se afasta do personagem feminino e se entrega ao personagem de Frédéric, quando se torna insuportável o término de seu relacionamento  com Angèle. Uma vida chega e outra se vai, sendo que todos buscam preencher seus vazios de alguma forma.

Ainda são manifestadas críticas ao governo de Sarkozy e sua política de repressão aos imigrantes, além da crítica à religião cristã.

É, sem dúvida, um filme a ser visto e contemplado.